quinta-feira, outubro 11, 2007

se eu fosse bicho
te unhava, arrancava um pedaço
ou então te devorava
te enredava na minha teia
me enrolava no teu corpo e sufocava
se eu fosse bicho, nem falava
só olhava armando bote
atacava
tempo de respirar?
não dava.
tavas morto se não visse
que tinha bem do teu lado
um poderoso bicho

quarta-feira, outubro 10, 2007

Faço estes versos roucos
Pra ver se me escutas
De ouro só tenho a palavra
A minha força mais bruta
Io te voglio tanto bene
Quero que se rendas
I love you, mi amor
Quero que entendas
Mein liebe, je t’aime beaucoup
Quero enredar nossas línguas
Pra que se convenças
AMOR se traduz EU e TU

terça-feira, outubro 09, 2007

sentimento trancado à chave
o estômago digere o sal
antes de virar pranto
no meu espanto, um silêncio rouco
nenhum sopro, só neblina
a menina de dentro
sublima o desejo e espera
balança as pernas
voa devagar enquanto respira
voam as roupas no varal
o tempo pode ser remédio
pra quem tem sorte

segunda-feira, outubro 08, 2007

meu corpo, teu brinquedo
objeto preferido
teu tesouro secreto
um oásis escondido
no mais quente deserto

meu corpo, teu recanto
em mim constróis muralhas
grava-te em milagre e espanto
te escreves anjo e canalha
No aguaçal do meu pranto

meu corpo, teu espaço
território das tuas ávidas mãos
rosas-dos-ventos dos meus passos
enloquece-me feito furacão
no redemoinho do teu abraço

quinta-feira, agosto 30, 2007

tudo sempre morre
o que resta é saudade
depois suave impressão
pinceladas foscas no vazio
colorindo nada

tudo sempre nasce
até onde há sal
e deserto

terça-feira, agosto 28, 2007

Não tenho medo da morte
Não durmo de luz apagada
Não acredito na sorte
Não pago conta atrasada
Não sei pra que lado é o norte
Não gosto da minha risada
Não pratico nenhum esporte
Não sei contar piada

Não sei aquilo que quero
Mas sei aquilo que sou

Os meus “nãos” todos de cor
Conheci as linhas das mãos
Gravei palavras no corpo
E algumas constelações
Beijei tantas bocas erradas
Dormi muitas horas a menos
Bebi tantos goles a mais
Dancei como enluarada
Escrevi tudo sobre mim
Li menos do que queria
Atravessei areias quentes
Amei de todas as formas
Cantei, nadei, morri

Não sei aquilo que quero
Tampouco aquilo que sou

Rio porque tudo é corrente
E eu sempre vôo

quinta-feira, julho 12, 2007

sorriso de risco no trapo
olhos cruzados
dedos também

os braços largados
esperam o abraço
que não vem.

repleto de pena
boneco sem cria
para amar
ninguém


(publicado originalmente no Tempestade Mental, do meu querido amigo Marcus Cesário)

quarta-feira, julho 11, 2007

você só há na escuridão
se abro os olhos
revela-se monstro
lírica assombração

a presente no espelho é o igual avesso
o sempre é o que resiste ao pó
e existe

quarta-feira, junho 27, 2007

Tanto vaguei pelo deserto
seca e sem asas
cega de areia e sal.

Teu fim atravessou meu começo
e te perpetuo em verbo
infinito
oásis verde
sereno espelho
sutil inundação

sexta-feira, junho 22, 2007

Amor inteiro

Assisti a um filme: “O amor não tira férias”, com ninguém menos que (a tão simbólica para mim) Kate Winslet. A personagem não tinha os cabelos laranja, nem era mãe de uma menina de três anos em crise entre a maternidade e a feminilidade, não estava lendo Mme. Bovary (eu estou, agora), mas me revelou da mesma “coincidente” e abrupta forma.
Sua máscara desta vez era a de uma mulher apaixonada e que ocupava somente o espaço secundário na vida do homem que desejava - um clássico e familiar caso de amor platônico. O cara era tudo de bom, lindo, inteligente, carinhoso – perfeito! - e ela o esperava há um certo tempo, crente de que o que sentia se realizaria em algum momento, mas não foi o que aconteceu.
Provou-se que quem espera, sempre cansa. E ela, exausta, resolve fugir pra outro mundo, desta vez real. Escondida em outra cidade, conhece um velho roteirista (viva os oráculos modernos e o cinema que revela essas inquietudes diárias) que anuncia: nos filmes sempre há duas atrizes junto ao protagonista – a melhor amiga e a atriz principal – e você não serve pra o primeiro papel. A moça se dá conta (e eu com ela), de que o papel secundário não é para mulheres inteiras e intensas.
Tudo bem, a ressalva para o pacote conto-de-fadas-felizes-para-sempre, mas por que não concordar que colocar os pés no chão (mesmo que seja atirando-se em um abismo) provoca as melhores mudanças?
Queria mesmo que fosse diferente, mas não é. Amor platônico não se cura com trepadas homéricas (isso só o disfarça); amor platônico se cura com amor real, sem entreveros, com pedras (e não muros) no caminho. Amor platônico se cura com silêncio e um pouco de escuridão, com portas (e janelas de MSN) fechadas. Amor platônico se cura com Amor-próprio.
Amor que precisa ultrapassar o tempo, o espaço e a falta de reciprocidade só é bonitinho em romance romântico, em quadro de programa sensacionalista, em novela de televisão, nas telas do cinema (até porque é amor alheio). O difícil ou o impossível servem pra roteiro, mas não pra vida essa que nos faz chorar pelas nossas próprias dores.
O meu cupido pediu licença. Eu dei. Até os deuses merecem férias...

quinta-feira, junho 21, 2007

não há tempo de espera
é preciso parir o sol

o dia abraça com mãos de homens
não existem nuvens

um sopro arrebenta o silêncio
suspende o ar
engole o grito

a vida prenhe
a casa muda

o céu é laranja
e arde

segunda-feira, junho 18, 2007

um caso com as palavras
apaixonada é diminutivo
amor, substantivo próprio
teu predicado, minha oração

uma vida de advérbios
tudo sem nexo

incoerente tecido que me faz
sujeito elíptico

quinta-feira, junho 14, 2007

deserto

areia que se dissolve entre os dedos
e espalha-se redemoinho furioso
antes lama
agora lâmina
transparente corpo em que reflito
no espelho, a ampulheta

segunda-feira, junho 04, 2007

Azar...
O que fazer se é obscuro
o meu desejo
como você
arredio e secreto
entre chaves e cacos
se te quero assim objeto
espelho em que me miro
tua versão fraturada?

(Fito canta enquanto rasgo a palavra)

quarta-feira, maio 30, 2007

Pousada sobre um galho,
ela observa seu íntimo abismo.

O sol bronzeia as cobertas no varal.
A maçã mordida descansa a seus pés.

Bárbaro, o bom-dia atravessa o caos
e provoca o tempo, sem anos.
Figuras caribenhas revelam seu sexo.

Cheiro de mato e romã.

domingo, maio 27, 2007

Tá pensando que é só bunda, gritei,
quando a tirei do caminho
daquele ousado beliscão.

- Prestenção, não é não!
Porque corpo é bom,
mas cérebro dá mais tesão.

Se quiser comer a carne
Vai ter que, primeiro,
amassar pão.

domingo, maio 13, 2007

é sempre a mesma gota
a igual adaga que fere
o tal veneno
que matam de forma idêntica
mil vezes singular

quinta-feira, maio 10, 2007

nos teus olhos azuis impossíveis
nos teus verdes de loucura
eu me perco
desafino
num sem ritmo
desatino
em madrugada e mentiras
sempre baile
sempre sina

o que importa
se é só corpo ou poesia
sou cretina
sou devassa

abisma

quarta-feira, maio 02, 2007

grandes são os Desertos
profundos os Abismos
sinônimos sinais
infinitos
olhos imensos e escuros guardam
todas as minhas dúvidas em suas certezas

travessia.

terça-feira, abril 24, 2007

Armadura
duríssima casca
madrepérola
máscara
imaculada

se não fosse câncer
seria certamente virgem
sua concha