terça-feira, fevereiro 21, 2012

Um redemoinho de palavras enlaçou os livros esquecidos

Não declararam amor
tampouco pediram perdão pela falta de gestos

Eram chuva forte sobre os papéis antigos
sobre os rostos
sobre as mãos tatuadas no último abraço
sobre nós desfazendo o presente

Perdia-se o tempo nas dívidas
(mágoas divisando o antes e o que restou)
perdia-se na bijouteria colorida e falsa

Mas os olhos teimosos guardaram o perfume da flor
enquanto nascia de novo a Poesia

*

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

vem redemoinho, pai
vento de temporal
tempo cheio de dedos
vai levar toda certeza
maldizer dos sonhos meus

eu aqui na menineza
tenho medo de rodar
nas ondas fartas de mar
virar cantiga, paizinho
pra brincar melhor a vida

sexta-feira, janeiro 13, 2012

tudo previsível como uma penteadeira

beijos gastaram todo o batom
mas restou o sangue
volúpia ardente na página daquele livro
respiro o teu perfume
quando a noite insiste em se fazer inteira
diante do espelho
tudo é nu

(gavetas também não escolhem as lembranças)

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Você estava tão perto
eu era capaz de adivinhar-lhe o peito
o cheiro de café e pó nas dobras da camisa
o redemoninho moreno, suas ideias

Você estava tão perto
que bastaria um gesto pra desfazer a ruína e o nó
um vento urbano suspirando na nuca
as palavras que me nego a repetir

Onde você esteve esse antes todo?
Se não era somente dentro de mim?
sigo as tuas palavras
segui teus passos
ainda susto
minha respiração

dilúvio das não-respostas
daquilo que nos foi roubado

como o sonho infantil de dia de Natal
como o verso do livro da cabeceira
como a flor
devorando meus olhos tristes

terça-feira, janeiro 03, 2012

Foi quando fomos jovens que abrimos portas
e dentro delas paredes de espelhos
tornaram infinitos nossos desejos?

 *

quinta-feira, dezembro 29, 2011

é preciso lembrar para esquecer

não há cigarro que apague a dor
nem dor que não se torne cicatriz

(é tempo)

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Juventude

O que havia de mim esvaiu-se
areia de ampulheta
levou aquilo que havia de sol

A peça de argila ocre
relembra o sopro
sem temor por tornar-se pó

segunda-feira, novembro 28, 2011

E se eu te peço pra abrir a caixa -
e tirar de lá aquela flor
as gargalhadas
a madrugada vestindo meias
a ceia
mãos dadas
o grito
os primeiros passos e depois
a chave que não é minha
palavras nem ditas
o futuro
tanta, tanta saudade
- será ainda presente?

domingo, outubro 16, 2011

as palavras nuas sobre o lençol
espelhavam os corpos
amantes
antes de o mundo pedir silêncio

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

posse


um pedaço do teu pão e do teu dia
um pouco de sonho
o que te adoece
uma noite de orgia
a página roubada do livro de poesia
asfalto florido
a saliva e depois

ser presa
surpresa
ser teto
ser verso
certeza

mas falta

segunda-feira, janeiro 31, 2011

escorrega pelos vãos, felina
arranca do meu sumo a força
para a sua escravidão
meus medos degusta cretina
lambe as pontas dos dedos
sussurra então um segredo
embaraça minha cabeça
depois ri feito cigana

a Poesia vadia pelo meu corpo
se mata é pra me fazer existir

da conquista, restou sob as mãos a cicatriz
nem a palavra nem o medo
como memória
uma boca úmida
ruídos dos sorrisos pares
Amor brotado como aquela flor
 (rompente)

Onde?

quarta-feira, novembro 03, 2010

a foto guardava a Travessia.
tão azul
que eu podia acreditar que era minha
tanto quanto aqueles dedos longos que despetalavam margaridas

naquele tempo o infinito ainda estava a meus pés

quarta-feira, outubro 13, 2010

Morrer um pouco

Era como se tivesse rasgado o peito frágil em que escrevera seu único poema. E tocado o fósforo ali depois de riscá-lo mecanicamente na caixinha que guarda o café portenho.

As lembranças não são sempre fumaça?

O amor enrodilhou-se anelado diante dos meus olhos mudos e subiu ao céu. Defunto.

terça-feira, outubro 05, 2010

Exercício de dizer

Havia nela ainda um quê de brisa. Não se sabia de onde vinham os cabelos em fúria ou o sempre cheiro de mato na pele. Era toda selvageria guardada na boca bem selada. Diferente de todas da casa, mais se aproximava era de Brusque, a gata arredia, ou das árvores do quintal. Silenciosa, o que deixava escapar às vezes eram ruminações de menina em brinquedos secretos roubados dos livros: dragoínas voejantes, docerejas, grumins.
Passarinhando pela casa, em arrulhos de coquetes, as outras irmãs. Saias de goma, fitas, cabelinhos. Orbitando sobre a mãe ocupada em fazê-las boas. Mulheres um dia. Donas. Agora todinhas filhas, filhotes sobre a asa gorda e regina.
Ina. Menos que substantivo concreto. Pedaço de nome: Catarina, menina, sina. No mesmo livro prendia seus olhos de bicho devorando as figuras já pálidas. Ninguém a via, alheia de tudo na sua roda de inventar o mundo.

domingo, junho 27, 2010

Era domingo de mormaço e saliva
vizinhento e pegajoso
calcinhas,
panela,
ela

Era domingo com gosto

(se ainda tivesse pulso, fazia um samba)

domingo, junho 20, 2010

-Vai
eu te diria se pudesse
sem lágrima
sem gesto de adeus
sem despedaçar-me

Há tanto que mastigo as dores
Há tanto que enxugo a saliva
que a palavra só
é partida

domingo, junho 13, 2010

das coisas que já não digo:
tanta água
algum medo
amor
horas gordas
um copo de sal
o corpo só

dobrada em silêncio
a matéria dos segredos alimenta-se dos segundos
até ser navalha

domingo, maio 09, 2010

Álvaro de Campos e sua poltrona de melancolia.
Seus tapetes.
As cartas.

Ridículos

Enrodilhei-me no nonsense da palavra amorosa.
Corpo nu.
E eu já nem tinha medo.

A madrugada faz ausência.
Ainda é (im)perfeito: chove.
(mas eu não ouso dizer)