quinta-feira, agosto 30, 2007

tudo sempre morre
o que resta é saudade
depois suave impressão
pinceladas foscas no vazio
colorindo nada

tudo sempre nasce
até onde há sal
e deserto

terça-feira, agosto 28, 2007

Não tenho medo da morte
Não durmo de luz apagada
Não acredito na sorte
Não pago conta atrasada
Não sei pra que lado é o norte
Não gosto da minha risada
Não pratico nenhum esporte
Não sei contar piada

Não sei aquilo que quero
Mas sei aquilo que sou

Os meus “nãos” todos de cor
Conheci as linhas das mãos
Gravei palavras no corpo
E algumas constelações
Beijei tantas bocas erradas
Dormi muitas horas a menos
Bebi tantos goles a mais
Dancei como enluarada
Escrevi tudo sobre mim
Li menos do que queria
Atravessei areias quentes
Amei de todas as formas
Cantei, nadei, morri

Não sei aquilo que quero
Tampouco aquilo que sou

Rio porque tudo é corrente
E eu sempre vôo

quinta-feira, julho 12, 2007

sorriso de risco no trapo
olhos cruzados
dedos também

os braços largados
esperam o abraço
que não vem.

repleto de pena
boneco sem cria
para amar
ninguém


(publicado originalmente no Tempestade Mental, do meu querido amigo Marcus Cesário)

quarta-feira, julho 11, 2007

você só há na escuridão
se abro os olhos
revela-se monstro
lírica assombração

a presente no espelho é o igual avesso
o sempre é o que resiste ao pó
e existe

quarta-feira, junho 27, 2007

Tanto vaguei pelo deserto
seca e sem asas
cega de areia e sal.

Teu fim atravessou meu começo
e te perpetuo em verbo
infinito
oásis verde
sereno espelho
sutil inundação

sexta-feira, junho 22, 2007

Amor inteiro

Assisti a um filme: “O amor não tira férias”, com ninguém menos que (a tão simbólica para mim) Kate Winslet. A personagem não tinha os cabelos laranja, nem era mãe de uma menina de três anos em crise entre a maternidade e a feminilidade, não estava lendo Mme. Bovary (eu estou, agora), mas me revelou da mesma “coincidente” e abrupta forma.
Sua máscara desta vez era a de uma mulher apaixonada e que ocupava somente o espaço secundário na vida do homem que desejava - um clássico e familiar caso de amor platônico. O cara era tudo de bom, lindo, inteligente, carinhoso – perfeito! - e ela o esperava há um certo tempo, crente de que o que sentia se realizaria em algum momento, mas não foi o que aconteceu.
Provou-se que quem espera, sempre cansa. E ela, exausta, resolve fugir pra outro mundo, desta vez real. Escondida em outra cidade, conhece um velho roteirista (viva os oráculos modernos e o cinema que revela essas inquietudes diárias) que anuncia: nos filmes sempre há duas atrizes junto ao protagonista – a melhor amiga e a atriz principal – e você não serve pra o primeiro papel. A moça se dá conta (e eu com ela), de que o papel secundário não é para mulheres inteiras e intensas.
Tudo bem, a ressalva para o pacote conto-de-fadas-felizes-para-sempre, mas por que não concordar que colocar os pés no chão (mesmo que seja atirando-se em um abismo) provoca as melhores mudanças?
Queria mesmo que fosse diferente, mas não é. Amor platônico não se cura com trepadas homéricas (isso só o disfarça); amor platônico se cura com amor real, sem entreveros, com pedras (e não muros) no caminho. Amor platônico se cura com silêncio e um pouco de escuridão, com portas (e janelas de MSN) fechadas. Amor platônico se cura com Amor-próprio.
Amor que precisa ultrapassar o tempo, o espaço e a falta de reciprocidade só é bonitinho em romance romântico, em quadro de programa sensacionalista, em novela de televisão, nas telas do cinema (até porque é amor alheio). O difícil ou o impossível servem pra roteiro, mas não pra vida essa que nos faz chorar pelas nossas próprias dores.
O meu cupido pediu licença. Eu dei. Até os deuses merecem férias...

quinta-feira, junho 21, 2007

não há tempo de espera
é preciso parir o sol

o dia abraça com mãos de homens
não existem nuvens

um sopro arrebenta o silêncio
suspende o ar
engole o grito

a vida prenhe
a casa muda

o céu é laranja
e arde

segunda-feira, junho 18, 2007

um caso com as palavras
apaixonada é diminutivo
amor, substantivo próprio
teu predicado, minha oração

uma vida de advérbios
tudo sem nexo

incoerente tecido que me faz
sujeito elíptico

quinta-feira, junho 14, 2007

deserto

areia que se dissolve entre os dedos
e espalha-se redemoinho furioso
antes lama
agora lâmina
transparente corpo em que reflito
no espelho, a ampulheta

segunda-feira, junho 04, 2007

Azar...
O que fazer se é obscuro
o meu desejo
como você
arredio e secreto
entre chaves e cacos
se te quero assim objeto
espelho em que me miro
tua versão fraturada?

(Fito canta enquanto rasgo a palavra)

quarta-feira, maio 30, 2007

Pousada sobre um galho,
ela observa seu íntimo abismo.

O sol bronzeia as cobertas no varal.
A maçã mordida descansa a seus pés.

Bárbaro, o bom-dia atravessa o caos
e provoca o tempo, sem anos.
Figuras caribenhas revelam seu sexo.

Cheiro de mato e romã.

domingo, maio 27, 2007

Tá pensando que é só bunda, gritei,
quando a tirei do caminho
daquele ousado beliscão.

- Prestenção, não é não!
Porque corpo é bom,
mas cérebro dá mais tesão.

Se quiser comer a carne
Vai ter que, primeiro,
amassar pão.

domingo, maio 13, 2007

é sempre a mesma gota
a igual adaga que fere
o tal veneno
que matam de forma idêntica
mil vezes singular

quinta-feira, maio 10, 2007

nos teus olhos azuis impossíveis
nos teus verdes de loucura
eu me perco
desafino
num sem ritmo
desatino
em madrugada e mentiras
sempre baile
sempre sina

o que importa
se é só corpo ou poesia
sou cretina
sou devassa

abisma

quarta-feira, maio 02, 2007

grandes são os Desertos
profundos os Abismos
sinônimos sinais
infinitos
olhos imensos e escuros guardam
todas as minhas dúvidas em suas certezas

travessia.

terça-feira, abril 24, 2007

Armadura
duríssima casca
madrepérola
máscara
imaculada

se não fosse câncer
seria certamente virgem
sua concha

quinta-feira, março 29, 2007

e eu que procurava por ti tão longe
te encontro de repente
correndo em cachos
espalhando guizos e gritos
colorindo a casa de calcinhas
é teu riso que me faz palavra
são teus olhos que me trazem sonho
no meu colo, quando adormeces,
embalo-me em cantos que não sei dizer
teu pranto, o primeiro e todos os outros,
me acordam praquilo que chamam de paraíso.

Filha, poesia, quem és tu?
como cresceste fora de mim enquanto eu nem via?

meu susto, meu quinhão do mais puro espanto
minha sempre espera por reconhecer-me
minha sempre alegria de reconhecer-te
criação

quarta-feira, março 28, 2007

Quando penso em minha filha, em algo que a descreva, sempre penso em música ou em poesia... Parte de seu nome chegou por causa de uma letra do Tom: “vem cá, Luísa, me dá tua mão (...) Vem me dar um beijo. E um raio de sol nos teus cabelos - como um brilhante que partindo a luz explode em sete cores, revelando então os sete mil amores, que eu guardei somente pra te dar, Luísa”. Quando ela crescia dentro de mim, eu nos ninava cantando: “você é assim, é tudo pra mim, e quando não te vejo, só penso em você, desde o amanhecer até quando eu me deito”. Quando nos vimos pela primeira vez, chorando as duas: “Eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você”.

Nosso repertório aumenta a cada dia: ela me ensinou a ser criança novamente, a subir e descer com a dona Aranha, a rebolar até o chão com a esquecida Xuxa da minha infância, a voar com a borboletinha... A Maria Luísa, minha Maluquete, me prova todo dia que não é preciso esperar menos do que a perfeição, que eu encontro nos seu riso frouxo, nos seus cachos bagunçados, no ressonar dos seus sonhos. Ela é minha luz. É quem me embala numa canção sempre doce e eu agradeço por tudo o que ela me mostra enquanto cresce (tal princesa das histórias que lemos) em virtude, beleza e inteligência.

Minha bela agora dorme enquanto escrevo e eu choro manso tomada de um amor sem tamanho.

“Ela é minha menina e eu sou a menina dela" ...

********************
(recebi um bilhete da escolinha pedindo que escrevesse um depoimento pra Malu, que vai fazer parte de um álbum do Maternal. Este é o depoimento. E eu que procurava a poesia fora de mim...)

domingo, março 25, 2007

Quando passa a tempestade
A calmaria dos longos abraços
Sete cores, vivas cores
Brisa morna, bom mormaço

A maresia, sal
Amar é sina, mal
A maré, a maré
Amar é bom, Amar é tão
Amar quente e fundo
Há mar dentro da gente

segunda-feira, março 12, 2007

Ai, quanta pretensão
Acreditar que poderia
Seqüestrar meu coração


Mas tenho passos largos
Fugi, mesmo carente
Guardei-me em meus armários,
Protegida de seus dentes
No escuro às vezes sinto
As grades de suas garras
E os gostos dos seus ais

Mas agora tanto faz
No silêncio do meu peito
Já morreram os lamentos
Não há cantos, nem há fadas
Nem você existe mais

Mas agora tanto faz
Eu vôo sobre o abismo
Mesmo de asas cortadas
Nova, Fênix, eu renasço
No carinho de outros braços

(pra ser musicada... que tal um samba ou um samba-rock?)