domingo, março 03, 2013

então as palavras romperam a casa como aves libertas
e revelaram os corpos nus
nem era noite
cuspiram sobre as lágrimas contidas
rasgaram verdades natimortas

amor alça voo sem pena
explode em silêncios gordos
descola camadas de vidas inteiras
desenha nas paredes aranha, corujas e gatos

é tempo
(e eu sou tua)

segunda-feira, dezembro 31, 2012


que tengas manos largas para tomar los caminos
que tengas ojos tontos de mirar la memoria
que tengas palabras bañadas por las montañas
que seas montaña
que puedas acordarte de creer como moverlas
que seas los pies del otro
que seas la historia del otro
que seas también dignidad

y que traiga suerte la risa que guardé en tu oído,
la fuerza que puse en este abrazo

y  que tengas dudas para que jamás te escape tu verdad



quinta-feira, dezembro 27, 2012

fui parida para os dias frios
gestos dramáticos em notas de bolero
um vinho bom
vermelha é também a ideia
como o teu sangue 
fervendo palavras na minha boca

quarta-feira, novembro 28, 2012

sou só descaso
gosto de longos silêncios
música me enternece
beijo porque é bom
coleciono abismos
de mim é que tenho medo

quero os copos quebrados
algumas madrugadas
o braço sobre o corpo cansado
mansidão

sem laço que prenda a palavra
sem caixa que cale a canção

segunda-feira, novembro 19, 2012

por anos
perdi-me no ruído dos meus passos
na curva do meu umbigo
roía as unhas todas
enquanto ruíam os castelos
e as cartas que nunca mandei
das quais nunca li as respostas

então tuas mãos
e os olhos perderam a razão

noite é tudo
no sobre há sempre estrelas


domingo, novembro 18, 2012



naquela caixa eu guardei o tempo
um guardanapo amarrotado
algumas dores
a imagem de santa
meu sertão
todos os outros
passos

sem espaço para o contrário
lotei de luto as certezas
silêncio para respirar

tonta de engano
escrevo o teu nome
(palavrabraço)

poesia é só memória





sábado, novembro 17, 2012

não tenho medo dos teus olhos pueris
nem do teu corpo lasso
não tenho medo da falta

fujo é das janelas que abres
sol que se estilhaça minha nudez





domingo, novembro 11, 2012

o corpo pede mais sede
porque a vontade é rouca
como último gemido
o corpo entoa rituais
evoca palavras em fúria
germina silêncios ancestrais
o corpo é instrumento
é página
o corpo é memória
e tem fome
respira
desprende-se blues
o corpo é caos
cúmplice diante do secreto
abre os olhos e se faz cristal
o corpo é espelho
é esfinge
é dois
é bom




domingo, outubro 07, 2012

Destranquei o bolero
e as palavras furiosas
libertei o corpo e a sede
dancei porque ainda havia ar

Anoiteci

Serenidade é saber que todo dia é fim


sábado, setembro 08, 2012

Ando tão cansada de mim (imimi) que sou capaz até de ser prosa.

sexta-feira, setembro 07, 2012

tentei te esquecer
escrevi sobre os objetos da casa
mas ainda havia o teu cigarro no cinzeiro
os pelos do teu peito no chão do chuveiro
olhei pro sol e ele tinha o gosto do teu suor
o sabiá insistia em te despertar na árvore em frente
(era a cotovia?)
o risco no bloco de anotações
as pedras da calçada da minha rua
a garrafa, o mapa, a canção
em tudo havia tua mão gentil

Descobri então a retroescavadeira
indolor em sua força
insensível à minha dor clichê
delicada garra febril
deliciosa máquina
cavou em minha poesia o vazio
e te arrancou do meu peito fértil


sábado, agosto 25, 2012

Enquanto você não vem
eu arrumo os caminhos
desenho flores nas paredes da casa vazia
e beijo-as
guardo as palavras insensatas nas caixas verdes
Não derramo lágrima
(que já chove sobre a árvore da frente)
Não sofro a falta

espera é uma madrugada quente em agosto

segunda-feira, agosto 20, 2012


eu te direi não
construirei edifício sólido
onde viverei longe dos teu lábios
do teu cheiro de palavra e mar
do teu gosto de abismo

Homem
eu direi não aos teus olhos tristes
ao teu canto de ordem
aos pássaros dos teus cabelos negros
e serei forte ao teu abraço

eu digo não
nem medo mais tenho

quarta-feira, agosto 15, 2012


beijo teus caminhos com ares de senhorita
serpenteio os cabelos de ideias roucas
bebo tua boca porque tenho sede
(dentro é deserto)
te canto histórias de morrer insônia
e me fazes a mulher dos abraços
e te fazes cego
enquanto tudo é engano

Amor sem medo é altura





segunda-feira, agosto 13, 2012

nem teus olhos febris
a pedra no meio da estrada
os ais de um gozo farto
a tua pele salgada
as pequenas promessas
um canto de madrugada
as minhas pernas abertas
a porta escancarada
estas palavras
aquela que foi calada


eu tenho as cicatrizes
de todas as putas guardadas
eu tenho a chave da caixa
há muito tempo trancada
eu sangro a veia que pulsa
escrevo a tua chaga
eu amo teu corpo cansado
eu beijo a tua boca molhada
porque eu não valho nada


quinta-feira, agosto 09, 2012

Do estômago brotaram as palavras de todas as cores
trancadas a chave e arrependimentos

O que ela sabia é que tinha pouco
as cartas de Frida
um beijo ébrio numa tarde qualquer
um resto de ar

Abriu a mala onde guardava as verdades
lá dentro escondeu o Amor





terça-feira, agosto 07, 2012

Olhava para o relógio desmontado cuidadosamente
as  engrenagens como peças de quebra-cabeça
molas adormecidas abraçadas aos ponteiros
Nada, ali, corria implacável
gritando que já era tarde

Era a primeira vez que não entendia
que os olhos é que guardavam o tempo
perdido 

Que nunca é hora, menina
e sempre é



quarta-feira, julho 25, 2012

Se eu pudesse te guardava aqui
te dava refúgio enquanto te fazia meu suor
(re)velava tua respiração de homem tonto de vida e dor
te enchia de amanheceres
escrevia amor no teu corpo
mas só o que me resta é esta pintura
e esta voz
cortando com boleros a felicidade


segunda-feira, julho 23, 2012

Era pra eu ter ficado quieta
Era pra eu ter ficado lúcida
Era pra eu ter ficado todas as outras

Acontece que só o que me ensinaram foi a prender botões
a bordar em cruz e cores
a fingir que as mãos sob as coxas cobertas bastariam pra me fazer mais doce
(e eu nem acredito em pernas cruzadas)

Era pra eu ter ficado dia
mas havia a tua boca a profanar as minhas escrituras

domingo, julho 22, 2012

Que tudo baste por aquilo que tem de silêncio
Beijo a sua boca com calma e delícia
pra calar melhor

quarta-feira, julho 18, 2012

Nunca te contei, mas sempre fui boa em encontrar esconderijos
guardei ontem mesmo uma menina estúpida em mim
tola de repetido único amor

A primeira vez que calei foi por susto
silenciar é fugir depressa pra dentro de um armário quente
Noite é escura
Eu sou mais

Nunca te contei, mas eu minto bem
(embora nunca o faça)

Sempre que há queda
Estilhaço




terça-feira, julho 17, 2012

verdade
eu gosto da fatalidade
nem comida leve
nem bocas sem beijo
abismo
felicidade breve
no drama das palavras vulgares

a volúpia me cai como vestido de noiva
e gozo







domingo, julho 15, 2012

Tinha olhos surpresos
e traços que contavam mais sobre si do que as palavras que não dizia

Era um homem
Era a noite

Até temer
ela nem lembrava que ainda tinha dentes
Chega uma hora em que olha no espelho e não encontra mais o avesso
a cara é só retrato 3x4 da sua identidade emaranhada
o que há por trás é a casa escura soando berros de alguma canção inominável
Memória tem cheiro de flor em velório
doce cozinhando em panela de vó

Se ainda acreditasse, abriria as cortinas
chorava rios e fingia ser feliz

Nem pra chover deus ajuda



segunda-feira, julho 09, 2012

eu saberia atravessar silêncios absurdos
digerir as mãos ausentes sobre o corpo morno
o poucamor que o tempo faz calmaria
eu poderia fingir o grito
eu poderia conter a falta
controlar

mas você vem com as palavras inesperadas
cantando as histórias de milanos
apaga o mapa
embaça a vida
risca na parede do quarto os dias

esquece

Eu queria dizer que eu tenho medo.

então abre os olhos de felicidade verde
suspiro
é sempre noite

*

segunda-feira, junho 04, 2012

Vem como amigo de infância, íntimo,  para sentar-se na varanda da casa da memória. Traz a fome e a voz como se oferecesse mais um mate. Ela nem sabe ainda se é tempo, mas escuta a prosa longa sobre os dias e a árvore genealógica que data do século quatro. Ele sorri e pronuncia palavras como cantigas de ninar esquecidas. Ela suga o sumo da surpresa. A vida pode ser meio doce, suave. Rotina é um aborrecimento delicioso. Seco o vinho, sorve a lágrima com espirotromba enquanto escreve mais um dia.
 
  

terça-feira, março 27, 2012

carrego os minutos todos de antes
pequenos riscos nos cantos dos olhos
a noite sempre tem alguma estrela que insiste em cair
fazendo promessas que não serão cumpridas


é sempre tudo de novo aqui

preocupo-me em fazer dormir a madugada
em fazer nascer uma manhã
passos das meninas
os risos gorjeando o dia

*    *        *
  *  *     *
        *

domingo, março 25, 2012

eu tenho tantas máscaras
(quase escondo o meu rosto rubro)
se finjo de estátua sem membros
é porque o que me falta é a coragem de ter olhos

e a verdade é que em todos os copos
em todos os corpos
eu sangro lentamente
estrela ausente de uma madrugada estéril
bêbada de mormaço dos dias quentes
de um cais febril

*

sexta-feira, março 16, 2012

Os pés passam
         ligeiros
             curtos
               apressados
na rasteira do dia
vento de Bandeira
que varre as folhas
e os meus cabelos tintos

Sem relógio
saudade faz poesia numa taça de café

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

E vem de novo a vida
pombagirando desembestada
velozvorazvermelhaventando


as vozes confusas
vadias de carnaval e medo
lambem os pés ariscos

varrida a via suja
o que sobrevivive
é risco

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Um redemoinho de palavras enlaçou os livros esquecidos

Não declararam amor
tampouco pediram perdão pela falta de gestos

Eram chuva forte sobre os papéis antigos
sobre os rostos
sobre as mãos tatuadas no último abraço
sobre nós desfazendo o presente

Perdia-se o tempo nas dívidas
(mágoas divisando o antes e o que restou)
perdia-se na bijouteria colorida e falsa

Mas os olhos teimosos guardaram o perfume da flor
enquanto nascia de novo a Poesia

*

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

vem redemoinho, pai
vento de temporal
tempo cheio de dedos
vai levar toda certeza
maldizer dos sonhos meus

eu aqui na menineza
tenho medo de rodar
nas ondas fartas de mar
virar cantiga, paizinho
pra brincar melhor a vida

sexta-feira, janeiro 13, 2012

tudo previsível como uma penteadeira

beijos gastaram todo o batom
mas restou o sangue
volúpia ardente na página daquele livro
respiro o teu perfume
quando a noite insiste em se fazer inteira
diante do espelho
tudo é nu

(gavetas também não escolhem as lembranças)

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Você estava tão perto
eu era capaz de adivinhar-lhe o peito
o cheiro de café e pó nas dobras da camisa
o redemoninho moreno, suas ideias

Você estava tão perto
que bastaria um gesto pra desfazer a ruína e o nó
um vento urbano suspirando na nuca
as palavras que me nego a repetir

Onde você esteve esse antes todo?
Se não era somente dentro de mim?
sigo as tuas palavras
segui teus passos
ainda susto
minha respiração

dilúvio das não-respostas
daquilo que nos foi roubado

como o sonho infantil de dia de Natal
como o verso do livro da cabeceira
como a flor
devorando meus olhos tristes

terça-feira, janeiro 03, 2012

Foi quando fomos jovens que abrimos portas
e dentro delas paredes de espelhos
tornaram infinitos nossos desejos?

 *

quinta-feira, dezembro 29, 2011

é preciso lembrar para esquecer

não há cigarro que apague a dor
nem dor que não se torne cicatriz

(é tempo)

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Juventude

O que havia de mim esvaiu-se
areia de ampulheta
levou aquilo que havia de sol

A peça de argila ocre
relembra o sopro
sem temor por tornar-se pó

segunda-feira, novembro 28, 2011

E se eu te peço pra abrir a caixa -
e tirar de lá aquela flor
as gargalhadas
a madrugada vestindo meias
a ceia
mãos dadas
o grito
os primeiros passos e depois
a chave que não é minha
palavras nem ditas
o futuro
tanta, tanta saudade
- será ainda presente?

domingo, outubro 16, 2011

as palavras nuas sobre o lençol
espelhavam os corpos
amantes
antes de o mundo pedir silêncio

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

posse


um pedaço do teu pão e do teu dia
um pouco de sonho
o que te adoece
uma noite de orgia
a página roubada do livro de poesia
asfalto florido
a saliva e depois

ser presa
surpresa
ser teto
ser verso
certeza

mas falta

segunda-feira, janeiro 31, 2011

escorrega pelos vãos, felina
arranca do meu sumo a força
para a sua escravidão
meus medos degusta cretina
lambe as pontas dos dedos
sussurra então um segredo
embaraça minha cabeça
depois ri feito cigana

a Poesia vadia pelo meu corpo
se mata é pra me fazer existir

da conquista, restou sob as mãos a cicatriz
nem a palavra nem o medo
como memória
uma boca úmida
ruídos dos sorrisos pares
Amor brotado como aquela flor
 (rompente)

Onde?

quarta-feira, novembro 03, 2010

a foto guardava a Travessia.
tão azul
que eu podia acreditar que era minha
tanto quanto aqueles dedos longos que despetalavam margaridas

naquele tempo o infinito ainda estava a meus pés

quarta-feira, outubro 13, 2010

Morrer um pouco

Era como se tivesse rasgado o peito frágil em que escrevera seu único poema. E tocado o fósforo ali depois de riscá-lo mecanicamente na caixinha que guarda o café portenho.

As lembranças não são sempre fumaça?

O amor enrodilhou-se anelado diante dos meus olhos mudos e subiu ao céu. Defunto.

terça-feira, outubro 05, 2010

Exercício de dizer

Havia nela ainda um quê de brisa. Não se sabia de onde vinham os cabelos em fúria ou o sempre cheiro de mato na pele. Era toda selvageria guardada na boca bem selada. Diferente de todas da casa, mais se aproximava era de Brusque, a gata arredia, ou das árvores do quintal. Silenciosa, o que deixava escapar às vezes eram ruminações de menina em brinquedos secretos roubados dos livros: dragoínas voejantes, docerejas, grumins.
Passarinhando pela casa, em arrulhos de coquetes, as outras irmãs. Saias de goma, fitas, cabelinhos. Orbitando sobre a mãe ocupada em fazê-las boas. Mulheres um dia. Donas. Agora todinhas filhas, filhotes sobre a asa gorda e regina.
Ina. Menos que substantivo concreto. Pedaço de nome: Catarina, menina, sina. No mesmo livro prendia seus olhos de bicho devorando as figuras já pálidas. Ninguém a via, alheia de tudo na sua roda de inventar o mundo.

domingo, junho 27, 2010

Era domingo de mormaço e saliva
vizinhento e pegajoso
calcinhas,
panela,
ela

Era domingo com gosto

(se ainda tivesse pulso, fazia um samba)

domingo, junho 20, 2010

-Vai
eu te diria se pudesse
sem lágrima
sem gesto de adeus
sem despedaçar-me

Há tanto que mastigo as dores
Há tanto que enxugo a saliva
que a palavra só
é partida

domingo, junho 13, 2010

das coisas que já não digo:
tanta água
algum medo
amor
horas gordas
um copo de sal
o corpo só

dobrada em silêncio
a matéria dos segredos alimenta-se dos segundos
até ser navalha

domingo, maio 09, 2010

Álvaro de Campos e sua poltrona de melancolia.
Seus tapetes.
As cartas.

Ridículos

Enrodilhei-me no nonsense da palavra amorosa.
Corpo nu.
E eu já nem tinha medo.

A madrugada faz ausência.
Ainda é (im)perfeito: chove.
(mas eu não ouso dizer)

domingo, abril 04, 2010

Rasgou a esperança com dentes de fera.

terça-feira, janeiro 26, 2010

medo é veneno
um céu sem estrela engole a memória
amor é temporal
agora chove

(você me guardaria na caixa das coisas esquecidas?)

segunda-feira, novembro 23, 2009

pra me perder no redemoinho do teu peito
nem um gesto
basta a noite
a riscar raios em hálito de café

sexta-feira, agosto 14, 2009

Parto

E se também a esperança saísse de dentro dela?

terça-feira, julho 21, 2009

Tempo

Com ele é sempre bom envelhecer.

segunda-feira, julho 13, 2009

Aniversário

O presente é um sonho.

domingo, julho 12, 2009

Amor

Entrou como quem volta para casa.

terça-feira, junho 16, 2009

Presente

Alice trouxe o coelho e todo o tempo perdido.

segunda-feira, maio 25, 2009

caço nas páginas daquele livro antigo
como dizer que eu te amo quando não digo
ignoro o risco da palavra-títere
e traço ainda no espelho o caminho
Esquerdo

terça-feira, maio 12, 2009

então me vem você
palavra já velha na minha saliva
riso ancestral
sai você de dentro
(sempre esteve?)
peito e sapatos cansados
os livros dentro da valise
risca de novo a história

você boreal
cor alterada na retina
amanhece com boca de café
a noite escura
esclarece o mistério da caixa

escurece
(a chave está no lugar)

você vem.

*
*
*

(e se calo é por não precisar saber)

sexta-feira, maio 08, 2009

Ele tocou seu sexo como quem salva um animal, ferido e frágil.

(pássaro delicado esquecido de voar.)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O sentido da vida

Acho que toda a minha imaginação empenhou-se, literalmente, no umbigo. Tudo o que o produzo é pra o bebê que cresce-se Francisco ou Alice cá nesta barriguinha já avantajada. As leituras tb andam se voltando pra gestação, parto, os processos todos que envolvem fazer-se mãe, enfim... Tudo isso é uma forma de dizer que os textos daqui talvez revelem um caminho diferente do que os seus irmãos mais velhos, que o olhar, talvez, por hora, veja outros aspectos que não costumo observar com tanta atenção...

Pra abrir os trabalhos, achei bacana compartilhar um trecho do roteiro d'O sentido da vida, do Monty Python, que sintetiza com humor o porquê de minha declarada escolha em esperar e me preparar pra um parto normal e domiciliar.

****

O Milagre da Vida

Monty Python


Cena: O Milagre da Vida.

Corredor de Hospital. Uma parturiente é levada apressadamente pelo corredor, deitada sobre uma maca que tromba violentamente contra várias portas de vai-e-vem. Parturiente e enfermeira passam para uma sala de consulta, onde dois médicos tentam acertar latas de cerveja vazias em um cesto de lixo.

Médico 1: CENTO E OITO!!

Enfermeira: As contrações da Sra. Moore estão mais frequentes, doutor.

Médico 1: Ótimo, ótimo. Leve-a para a sala do terror-fetal

Enfermeira: Certo.

Os três passam para sala de parto.

Médico 1: Está meio vazio isso aqui, não?

Médico 2: Siiiiiiiiim!!!!

Médico 1: Enfermeira, mais aparelhos, por favor!

Enfermeira: Sim, doutor.

Médico 1: Sim... O EEG, o Monitor BP, e o AVV, por favor.

Médico 2: E traga o aparelho que faz "Ping"!

Médico 1: E traga os aparelhos mais caros, para o caso do Diretor aparecer.

A sala de parto é inundada de aparelhos. A parturiente desaparece por trás de todo o equipamento.

Médico 1: Agora está melhor, bem melhor...

Médico 2: SIM!!! Agora sim!!

Médico 1: Mas ainda tem alguma coisa faltando... (Eles se concentram por um momento)

Médico 1 e 2 (em uníssono): Paciente?

Médico 2: Onde está a paciente?

Médico 1: Alguém viu a paciente ?!?

Medico 2: Paciente!

Enfermeira: Aqui! Achei!!

Médico 1: Traga-a aqui.

Médico 2: Cuidado com a máquna!

Médico 1: Chegue mais perto!

Médico 2: Pula pra cá... Upa!

Médico 1: Oi! Não se preocupe que está tudo bem.

Médico 2: Nós vamos curá-la.

Médico 1: Deixe tudo conosco, você não vai nem saber o que foi que aconteceu.

Médico 2: Tchauzinho... Tchauzinho.... Abram o soro!! Injeções!!!!

Médico 2: Posso por o tubo na cabeça do bebê?

Médico 1: Só se eu puder fazer a episiotomia.

Médico 2: OK.

Médico 1: Agora, pernas pra cima.

As pernas da paciente são colocadas nos estribos, enquanto os médicos abrem as portas em frente.

Médicos 1 e 2: Vão entrando, vão entrando... Alegria, alegria!! Entrem, entrem, espalhem-se por aí.

Entra uma pequena horda, a maioria médicos, mas entre eles dois japoneses com máquinas fotográficas e filmadora. O médico 1 esbarra em um homem.

Médico 1: Quem é você?

Homem: Eu sou o marido.

Médico 1: Sinto muito, mas apenas as pessoas envolvidas podem ficar aqui.

O Marido sai.

Sra. Moore: O que eu devo fazer?

Médico 2: Pois não?

Sra. Moore: O que eu devo fazer?

Médico 2: Nada meu bem, você não é qualificada.

Médico 1: Deixe conosco.

Sra. Moore: Para que é isso???

Ela aponta para uma máquina.

Médico 1: Essa é a máquina que faz "Ping".

A máquina começa a fazer "Ping".

Médico 1: Você viu? Isso significa que seu bebê ainda está vivo.

O Médico 2 aponta para outra máquina.

Médico 2: E essa é a máquina mais cara de todo o hospital.

Médico 1: Sim, e custou mais de 750.000 libras!

Médico 2: Que sorte a sua, hein??

Enfermeira: O Diretor está aqui, doutor.

Médico 1: Então rápido! Liguem toda a aparelhagem!!

Eles ligam. Tudo começa a piscar e bipar. Entra o Diretor.

Diretor: Bom dia, senhores.

Médicos 1 e 2: Bom dia, Sr. Pycroft.

Diretor: Hummm, muito bem!! (Parecendo impressionado) E o que é que vocês estão fazendo agora?

Médico 1: É um parto.

Diretor: Ah! E que tipo de coisa é isso?

Médico 2: Bom, é quando tiramos um bebê da barriga de uma mulher.

Diretor: É impressionante o que podemos fazer hoje em dia. Ah! Vejo que vocês estão com a máquina que faz Ping. Essa é a minha favorita. Olha so, nós alugamos essa máquina de volta da companhia para a qual havíamos vendido! Dessa forma ela entra como gasto do mês corrente, em vez de entrar na despesa geral. (Todos aplaudem). Obrigado.. Obrigado.. Nós tentamos fazer o melhor possível. Bem, por favor continuem.

Ele sai da sala.

Enfermeira: Oh! A vulva está dilatando, doutor.

Médico 1: Sim, aí está a cabeça. Sim, 4 centímetros, 5, seis centímetros.

Médico 1 e 2: Luzes! Amplifique a maquina de ping! Colocar as máscaras! Sucção! Lá vem ele!!!

O bebê chega.

Médico 1: E amedrontem-no!

Eles agarram o bebê, seguram-no de ponta cabeça, dão um tapa, põem tubos no nariz, esfregam-no com água fria. Daí o bebê é colocado sobre uma tábua de carne e o cordão é cortado com um cutelo.

Médico 1: As toalhas ásperas!

O bebê é seco com as toalhas ásperas.

Médico 1: Mostrem-no para a mãe.

Ele é mostrado à mãe.

Médico 1 e 2: Já está bom. Certo. Vamos sedá-la, numerem a criança. Meçam, façam a tipagem sanguínea e... isolem-no!

Enfermeira: Ok, o show acabou.

Sra. Moore: É menino ou menina?

Médico 1: Eu acho que é um pouquinho cedo para começar a impor papéis à pobre criança, não acha? Agora um conselhozinho. Você pode começar a perceber que está se sentindo irracionalmente deprimida. DPP como nós médicos chamamos. Então vou te dar um monte de pílulas felizes para você, e você pode descobrir tudo sobre o parto quando você chegar em casa. Está disponível em Betamax, VHS e Super 8.

Os médicos, a pequena horda, as enfermeiras, todos desaparecem, deixando a mãe com olhar perplexo, sozinha com a máquina que continua... Ping, Ping, Ping..


Copyright © 1983, The Monty Python Partnership.

terça-feira, novembro 18, 2008

Bossa

Não tenho mais tempo pras palavras
Larguei da poesia
Não quero mais essa mesma canção
Adeus, meu bem
Vou ser morena do samba de alguém

sexta-feira, novembro 14, 2008

Madrigal

ele pinta palavras em meu corpo
renascentista
a madrugada é nua e farta
baixa contínua em nós
descendente é o inferno
cadência perfeita
onde descobri a pureza

terça-feira, novembro 04, 2008

Pequena morte

COMA
(me)

domingo, novembro 02, 2008

Desdenho o amor
como quem enxerga o pó sobre os livros da estante
como quem saliva diante da mesa em banquete

Passa por mim
Nem sinto sede

O amor é brisa nas minhas cortinas fechadas
Busca imprevista fresta
Chove a vidraça

Sem susto

Torno a dormir
Faz escuro e estou cansada

quinta-feira, outubro 30, 2008

pra que asas se posso cantar
meus abismos nas linhas das tuas mãos
engulo o ar para não respirar-te
e trago a noite
como quem rege uma oração

terça-feira, setembro 23, 2008

o dia adormece em cinza e púrpura
todas as palavras esquecidas sussurradas no vento
meus olhos como nas histórias de infância
chove no último andar e eu nem tenho medo da queda
como você
como quem não pensa
como quem se alimenta porque precisa viver

terça-feira, setembro 02, 2008

a mão abana delicadamente um lenço
bandeira tremulante em adeus
sádico prazer
hábito

sequer Ela chora
sequer Ele vê

ficar não é escolha
é esquecimento



.

terça-feira, agosto 26, 2008

Meu queixo descansa em teu ombro adormecido
e meus olhos perdem-se na curva
traço entre uma pinta e a outra no mapa das tuas costas

Canta uma voz conhecida os músculos exaustos do teu corpo
(em que me atiro feito sabiá em manhã de segunda-feira)
feito rio em correnteza

segunda-feira, agosto 25, 2008

Fragmentos do discurso amoroso

Tudo pode ser simples quando bem dito, quando bem desejado, quando bem divertido. O discurso amoroso, considerando-o aqui como aquele que se dispõe ao encantamento, permite, tal como Barthes o fez, expressar (sem máscaras) aquilo que é normalmente secreto. Carpe diem, babe. Você está certo:

"As coisas bem ditas:
benditas coisas"

quinta-feira, agosto 21, 2008

Esse mar que Dori cantou:
as ondas do teu cabelo menino
o azul imenso do teu olho pescador
imprevisto e transparente
tal brincadeira de amor

segunda-feira, agosto 18, 2008

As letras me aprenderam menina

Nem sei quanto tempo passou
quanta vida se precisa para respirar

Não aprendi a contar com a sorte
com os números - esses inimigos

Um pouco de ar é suspiro

Meus dedos são dez
Meus medos infinitos

E digo porque contei contigo

(a chave continua no umbigo?)

quinta-feira, agosto 14, 2008

Não são teus olhos em espiral
Não é tua boca tatuada em minhas costas
Não são as palavras que me roubas
Nem os segredos roucos
Não é o gozo
Não é o vento
Não é o abismo
São as ondas do teu corpo molhado
Eu tenho medo é do mar

domingo, agosto 10, 2008

Não entre na quinquilharia
amor, verdades, mobília
De ti quero o silêncio
(eu gosto das casas vazias)
Do teu dia eu quero o sol
algum amanhecer
palavras pra poesia
(porque eu preciso dizer)

sexta-feira, agosto 08, 2008

quando me beija
o que devora
é meu grito

quando me devora
o que descobre
é meu susto

quinta-feira, agosto 07, 2008

esse teu cheiro de fruto
- se o tenho à boca -
(ah)
nem coro
devoro

terça-feira, agosto 05, 2008

Atenção,
isso é um aviso:
eu não sou um lago manso,
eu sou o Abismo.

Fica longe,
olha o perigo!
Se me amar agora,
vai me odiar um dia.

(você pode até gostar da minha anatomia,
mas vai me chamar de grande filha filha de uma vaca)

Pra quem gosta de cartas marcadas:
Eu não valho nada!
Sou Rainha.
(e gosto das cabeças cortadas)

Cuidado, rapaz!

Blefa direito
ou não descobre do que eu sou capaz...

sábado, agosto 02, 2008

Sempre me surpreendo com o que sou capaz de dizer quando bebo. Mas me surpreendo ainda mais com o que os outros dizem na mesa ao lado quando o fazem. Aí vai então, da série Frases alheias de boteco: A vida é um sexo!

(Análises sobre os sentidos ou produções acerca da situação hipotética em que foi dita tal pérola são bem-vindas)

quinta-feira, julho 31, 2008

gosto de te ver assim
resto de noite na minha boca
entre os lençóis de lavanda
nas notas daquela canção
na caligrafia das minhas anotações

teu gesto escorre pelo papel
feito chuva de domingo

terça-feira, julho 29, 2008

ligação de cobrança
caminhão de gás
torneira mal fechada
construção no quintal ao lado de casa
dança
mendigo pedindo moeda na calçada
corpo pedindo água
cachaça
música ruim no rádio do vizinho
telefone ocupado
tu
tu
tu

A vida é um disco riscado.

segunda-feira, julho 28, 2008

Os gatos (excerto)

(..)

Os gatos jamais me dêem a sensação
à toa
de ter adormecido antes do perigo
onde há carne, e líquido, e suor lento

engolindo a vontade da Palavra.
Que culpa tenho deste sono que se origina
antes de mim,
na dúvida de saber que sorriso fez

os gatos de músculo me atentando
me querendo sem roupas e ao frio
dos telhados

escrevendo as coisas felinas confundidas
e seus pulos imitando sem desenho
“onde a loucura dorme inteira e sem lacunas”.

Ana C.

quarta-feira, julho 23, 2008

luzes acesas
vozes amigas
chove melhor

Alice Ruiz

sexta-feira, julho 18, 2008

O dia da criação

Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27



I


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.



II


Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.



III


Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.



Vinícius de Morais

(in Poemas, sonetos e baladas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano"

*****

Tá, eu sei que é sexta, mas esse poema não saiu da minha cabeça.

segunda-feira, julho 14, 2008

Era noite quando ela amanheceu. Os olhos roucos, cansados de tantos ver. A mão pequena tateou pelo escuro do quarto à procura do corpo ao seu lado na cama. Encontrou o sussurro perdido na sombra. Era o vento na rua ou a voz do fantasma quem a chamava?

Esfregou com força o rosto no tecido da fronha. O travesseiro era o silente e fiel depositário de seus segredos. (Se o partissem, despejaria em correnteza todas as suas lágrimas contidas)

Queria mover-se e precipitar-se para a noite. Chovia agora uma água miúda que tocava no vidro uma delicada partitura. Queria chover-se também, confundir as gotas. Fundir pureza e dor.

O corpo pregado à cama respirava autônomo. Ele não lhe pertencia mais. Emoldurado entre os lençóis desfeitos permanecia onírico.

Todas as suas partes uivaram em cio agudo, inundando de não-palavras a escuridão.

quinta-feira, julho 10, 2008

Comunhão

O corpo é partido.

a chaga rasgada do pulso
preenche de vinho o cálice

martelam badaladas
palavras em uníssono
gemidos em ladainha

já não há mãos enlaçadas
nem palavras de perdão.

(Madalena espalha as pedras para não perder o rumo)

domingo, junho 29, 2008

Dead line

Embalava as pernas. Desde criança embalava as pernas quando pensava. Gostava de sentir o vento morno enquanto observava a chaminé da Usina perfurando o céu. Do último andar era possível ver o sol ser engolido pelas águas escuras do Guaíba. E ele gostava de sentar-se ali, no terraço do edifício, os olhos ainda tontos de tanto ver. Depois disso, as idéias sempre chegavam.

................................

Seu corpo cortou o espaço e invadiu a calçada da Rua da Praia.

Era domingo e ele precisava da notícia.

quinta-feira, junho 12, 2008

Amor, sobrenome Passagem

Quando o Amor chegar, estarei inteira. Para poder ser sua, inteira. Porque Ele não aceitaria menos. Não aceitaria metade de mim (mesmo eu sendo metade sua, serei uma metade inteira).

Vai me ligar para saber o que levar para o jantar e eu vou pedir um corte de carne, pensando que deveria ter respondido Amor. Não haverá mais fome em mim quando Ele chegar. Com flores e suspiros.

O seu sorriso será tão encantador quanto os seus olhos quando me seduzirem, cúmplices. Ele saberá dizer o que precisa ser dito e, surpreendentemente, vou calar quando Ele chegar.

Vai arrancar-me a preguiça e eu vou roubar seus silêncios. Respeitaremos as pausas e os sinais fechados. Vamos beijar com o corpo, vamos ler juntos e em voz alta e seremos muito ridículos e banais: cinema, café, boteco, mercado. Par. Casalsinho. Pombos. Apaixonados. Mão dupla. Clichês.

Vamos dançar juntos - pela noite e pela vida. Gostaremos de chuva, de estradas, de estrelas, de lua cheia, de rios caudalosos, de sonhos vadios, de palavras, de abismos, de riscos e papéis.

Quando Ele esquecerá os tempos, os verbos e os nomes ao cruzar a porta e se reconhecer no espelho.

quarta-feira, junho 04, 2008

Vontade de te ver sorrir mundo. Vontade de rir do teu riso frouxo de menino-homem. Dos teus olhos estrelando, explodindo diante das minhas bobices de mulher-menina. Do meu choro de felicidade compartilhada e incontida. Porque não precisa mais ser secreta.

Um livro de bolso: citações de todos os nossos autores escritas com letra de professora em papel colorido. As músicas selecionadas pra ouvir dormindo, pra cantar sozinho, pra cantar comigo, pra sentir saudades, pra sentir. A camiseta com palavras de ordem. Uma caixinha com corações de origami: 365. Cartas. A frase de Frida Kahlo em moldura. (A vida passa sem que tu saibas disso.)

O presente é um armário repleto de sonhos guardados, esperando que o tempo mude pra poderem existir.

domingo, junho 01, 2008

Nasci enforcada no cordão umbilical.
Fui atropelada duas vezes: aos dois meses e dez anos depois
Usei botinhas ortopédicas.
Rolei três andares de escada aos quatro.
Sinto cólicas toda vez que menstruo.
Pari uma filha.
Já fui cinza.
Tenho palavras no corpo e nas mãos.
Tenho paixão pelo abismo
e um álbum de cicatrizes.

E me perguntas se tenho medo de sofrer...

sexta-feira, maio 30, 2008

No espelho partido
Alice espia o mundo
e todas as cabeças cortadas

segunda-feira, maio 26, 2008

Passa por mim
rio, riso, minuano
ponte para as lembranças

Peça
um monte de areia
um tanto de ar
um resto de amor

Diante dos olhos
o passado dá voltas
em torno do círculo

quinta-feira, maio 08, 2008

Considerações sobre nada

Estou lendo "Cartas apaixonadas de Frida", uma complilação das mensagens da artista mexicana Frida Kahlo aos seus amores: amigos queridos, familiares, namorados, amantes. Inspirador. Dá vontade de sair escrevendo tudo o que se passa na cabeça a qualquer das pessoas que rouba meus pensamentos. E é o que tenho feito.

São as cartas que eu não mando. O dia triste e o amor ainda guardado confessado ao amante perdido, a felicidade do riso frouxo que me dá minha filha em sua surpreendente floração, a gratidão aos amigos, as saudades de tanta gente, os medos e perguntas sem respostas aos pais, as expectativas de futuro sobre meus alunos.

As palavras têm escapado de mim como sempre fizeram as lágrimas. Aos borbotões, explodindo, aguaçando. E eu ando seca de qualquer outra coisa que não seja discurso.

quarta-feira, maio 07, 2008

Descansa Galatéia em almofadas rubras
A face morta e perfeita
Descansa Pigmaleão admirado
À sua frente sorri o Amor
Às suas costas ri Afrodite
Mas não é a alva mulher que ele admira
A obra é somente pedra bruta ante o cinzel
O que o artista vê quando grita
É Narciso preso no espelho

segunda-feira, maio 05, 2008

A media luz

Quando ele partiu, Mariana Rosa fumou um maço de cigarros e gastou três pacotes de lenços de papel. Durante um mês a voz dele deitou-se no lado direito da cama e sussurrou imoralidades em seu ouvido. Na última sexta-feira, no lixo do prédio, vários discos de Gardel foram encontrados. Todos quebrados.

domingo, maio 04, 2008

Uma mulher parindo um filho
Um gato no cio no telhado vizinho
Um bêbado dormindo na calçada do outro lado da rua
A vitória do time no campeonato estadual de futebol
Quarenta e seis minutos do segundo tempo
Quarenta e dois milímetros de cabelos a mais na cabeça
Alguns brancos
Um cigarro queimando sozinho no cinzeiro
Uma lista de supermercado
Uma fila de ônibus
Trinta dias
Nomes riscados na agenda de telefone
Três sacolas de lixo
Nove livros que ainda não foram lidos
Chuva
Tudo passa
Antes da cicatriz sempre existe a espera

sábado, maio 03, 2008

Chegou sem que ela percebesse
Tomou conta de seu corpo
de suas noites e de seus dias
Beijou-lhe as mãos, os seios, as têmporas
Tornou-se sua imagem no espelho
Outra e tão conhecida

Na última primavera,
escorregou os dedos sobre os longos cabelos
fechou seus olhos com delicadeza
(para que não o visse partir)

O Tempo não sabia, entretanto,
que a deixara grávida de Vida

quinta-feira, maio 01, 2008

no escuro, sobre o livro morno
descansam os olhos do menino
não há ponteiros pra gerar o tempo
em nuvens caminha o sonho
lento e velho como alma
sábio de que nunca é perdido
aquilo que se tem chave
o quarto murmura as pedras do caminho
em que saltita dourada dorothy

deveras
Melancolia não cabe em palavra
nem Amor

terça-feira, abril 29, 2008

"Rita, guardei essa mensagenzinha
Para que os dias nasçam em amarelo
e as flores brotem das vidraças
Para que as portas saiam correndo pela rua
e a passagem fique sempre escancarada
Guardei essa mensagenzinha pra ti
Para o teu travesseiro e teu vestido de bolinhas
Para teu rosto largo de mulher ligeira
para teus brotos que sempre explodem
E para as noites que nunca acabam
Guardei porque era tua"

E porque era minha, tomei a liberdade de publicar sem autorização prévia do Tiago Collovini, meu amigo-amor, que compartilha das palavras e dos silêncios todos.
Tomei a liberdade de publicar porque amor se divide, porque amor (se) alimenta, amor faz sorriso brotar (mesmo quando se pensa que ele não há).
Tomei a liberdade de publicar para agradecer aos amigos todos que me levam nos braços quando meus pés ardem ou minhas asas quebram ou meus sonhos entram em profunda letargia.
Pelas mãos, pelos pés, pelos ouvidos, pelas bocas repletas de beijos, chimarrão, alentos e cafés, pelos olhos, pelos textos próprios e alheios, pelo meu nome em vocativo, pelos seus em oração. Obrigada.

segunda-feira, abril 28, 2008



(Los Hermanos, "Adeus você", gravação ao vivo no Cine Íris. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=kcCco0I9OA0)

*******

Porque o resto é silêncio
E esqueci como se canta
E esqueci como se dança
E esqueci como se chora
E esqueci como se esquece
Porque eu grito no escuro
Porque eu sei
Só esqueci como dizer