sexta-feira, abril 28, 2023

tua voz ainda ecoa como o tapa 
que nunca houve mas podia
e da mesma mão que não batia
estirava-se o braço que acolhia
abrigo dos outros perigos que o mundo 
                                           [todinho se fazia
as gentes, a fome, a solidão,  a doença,  
a loucura, meus próprios nãos 
o sexo,  a mãe, todo tipo de assombração
mas como século a página vira
e o corpo escolhe suas nudezas
não encolhe
não silencia
sem medo 
o corpo escolhe resistir 
e não permitir nunca mais deixar morrer


quinta-feira, abril 27, 2023

   meu bem, 

   às vezes estou bem. ainda não sei como escrever medo e desejo porque é outono e faz quente. existir é deixar de ser invisível. tenho me perguntado como soltar a palavra acuada, acusada. deixá-la sair assim: pelada, desavergonhada, safada, pra falar que gosta, só gosta. como verbar o corpo: beijar, dormir, sussurrar, sorrir, conversar, olhar, roncar, beber, segredar, gozar, estar, sem dever depois? 

(por isso disfarço e alimento vícios secretos inconfessáveis)

não sei dizer mais, disse dois ou três poemas atrás. então engulo. amarga. regurgito.  ácida. engulo de novo.  ressentida. calo e vomito. e pela minha pele queimada escorrem suor e culpa, ardem vergonhas flamejantes. 

grito tão incompetente que.




(assino agora essa carta de horror. nome de novela mexicana. propício.)


                   A Impostora 



p.s. poderiam ser dois textos, mas é um só. decidi no caminho. 

segunda-feira, abril 24, 2023

roupas lavadas lotando o varal
ainda úmidas de tormenta 
bafo quente
tua boca, minha nuca
beijo de dias que esquecem de terminar

outono é silêncio 

sexta-feira, abril 07, 2023

havia tempo que tinha esquecido como dizer bem. antes eu sabia que só sorrir no rabo de olho era um modo de avesso certo. era um troço de ser eu pra além da casca: um pouco casco, um pouco pinça, um pouco fogo queimando no fundo daquele poço que quase ninguém visita. Abismo era uma palavra que eu gostava tanto. Deserto também. hoje eu prefiro as minúsculas: um abraço no domingo, um cochilo, pouco susto. voo baixo, sem gravidades. olha a pressão, olha. é outono e é bom porque faz frio aqui. frio é minúscula também. como beijar, dizer, dormir, esperar, envelhecer. envelhecer pode ser bonito. eu li. 

escrever é um jeito de enxergar pra fora.

sábado, março 11, 2023

te contei?

escrevo como quem grita 
como quem lança os discos pela janela
e rasga as roupas
e quebra as louças
(levou dez anos pra montar o aparelho de jantar, lembra?)
vizinhos se entreolham assustados
cochicham estarrecidos
a, as palavras pretensiosas

escrevo por desvario
exaustão, descaso, ranço, vingança 
- nunca amor -
drama é sempre enchente
- canceriana, né? - você disse
- um pouco carta, você completa
eu meneio um sim, simpatiquinha

cartas de amor são ridículas!

só às vezes me guardo
caixa de silêncio
gaveta
caneta sem tinta 
quarto escuro com porta fechada

porque dizer, como a vida, 
é perigoso

(ando fingindo mal, percebe?)


quarta-feira, janeiro 25, 2023

resposta

nessa curva onde teu olho se perde
e nessa outra aqui, ainda decorada
nos meus tremores
nos meus interiores
na minha travessia até o infinito
 
meu corpo inteiro

terça-feira, abril 05, 2022

.

Existe um tempo entre o que não se sabe que vai acontecer, que só anuncia, e espera. O tempo antes de um grande temporal. O tempo antes que inicie o trabalho de parto. O tempo antes que termine o último dia de trabalho do ano. O último dia de trabalho da vida. O tempo que antecede a última respiração. Tempos do suspenso. Quando arrumava a cama, gostava de sacudir os lençóis no quarto da casa de madeira da avó. Por muito tempo ficavam levitando no ar, sob o sol que entrava pela janela, as formas que brilhavam, giravam, subiam e desciam. Até tudo se acomodar. Novamente. Em nenhum outro lugar nunca mais foi assim. Depois foi só poeira. Na memória o conforto para a mudança e a compreensão de que tudo vai descansar diante dos meus olhos espantados. Uma vida toda guardada naquele quarto de vó, adormecida e despertada tantas vezes.

. Até que eu precisei crescer. E todas as outras mortes vieram. 

 agora

segunda-feira, abril 04, 2022

Uma taça não é só uma taça

é pouco de corpo

um colo

o desejo

uma vitória 


É um brinde.  

Uma de outra que aguarda

anúncio, início, fim

memória


Uma taça é só uma taça.


Amor em nosso assoalho

estilhaçado


agora

Li muitos textos sobre caixas.
Profundos, delicados, crueis.
Caixas pra classificar problemas, pra recortar e guardar palavras, pra prender o mal ou revelar a esperança.

Uma encaixotou uma mulher. Outra, retratos de família. Houve a das memórias da menina, com a bailarina e a música girando.

Sobre as minhas ninguém contou. 
Aprisionei em alguma a dor da filha perdida entre as quinquilharias 
e as mentiras servidas em almoço de domingo. Na outra acomodei a mãe chorando na sua escuridão com a chave perdida. 

Guardo caixas vazias, com bijouterias quebradas, com fotografias caóticas e desordenadas. Não conversam mais sobre quem são as pessoas que comemoram aniversários ou se abraçam como se fossem íntimas. Dali só as crianças permanecem. Sementes, se salvaram da amargura e do ressentimento. Não são fantasmas impressos no vazio do tempo. Viraram nome próprio. Mulher. Sobrevivente das mentiras silenciadas. Nós. Agarram vida com dedos de quem arrebenta segredos, destroça dores antigas e devora misérias familiares com dentes  furiosos.

O mundo é parido dentro do estômago de quem arrancou os cordões.

domingo, abril 03, 2022

qual enrodilhou-se na cama
qual preparou o café
qual abraçou a criança
qual retribuiu o beijo
qual engoliu o grito
qual calou o choro
qual voltou do trabalho
qual gozou
qual escreveu as palavras
qual pediu desculpas
qual pediu licença
qual pediu as horas
qual perdeu as horas
qual perdeu tempo

O que passou
Sem que ela soubesse
qual

sexta-feira, maio 24, 2013

era um inseto
minúsculo
o que rompeu sua pele
o que bebeu do seu sangue
impetuoso em desejo

era um inseto
olho não via
e devorava sua palavra
e transformava sua rotina
ardendo as asas escuras

era um inseto
sequer se sabia

era um inseto
mas existia
nas frestas do dia-a-dia
obscuro nas nossas cortinas


segunda-feira, maio 06, 2013

e é porque sei que tudo é finito
que tenho medo
da noite sempre curta
dos risos vezes pouco
daquela canção perdida
tua voz rouquejando na memória
os desamores debulhados

tenho medo porque grita tempo
a minha pele, os meus cabelos
porque fé também é cansaço

medo do tanto querer
da falta do gesto
das palavras prometidas
no verso da página
no avesso da vida minha
que é também vida tua

tenho medo do que é passo
do que é salto
(ainda que ame o profundo)
dessa travessia que meu corpo guarda
quando ainda nem havia nós

no silêncio sublima-se o Amor destinado
com susto de quem espera passar a escuridão



sábado, março 09, 2013

como cartas que deveriam ser esquecidas
amassados foram os sonhos nas linhas das mãos
sob as tintas vivas da paredes
cochicharam sua sede, uma rosa vermelha, arroz
promessas de mãos dadas em ruas de um país não muito distante

basium ad infinitum
o tempo pode ser cura ou veneno
xícara de chá na madrugada
o silêncio das pequenas solidões tocava na vitrola
pra fazer passar as horas
pra fazer passar a dor

risco

domingo, março 03, 2013

então as palavras romperam a casa como aves libertas
e revelaram os corpos nus
nem era noite
cuspiram sobre as lágrimas contidas
rasgaram verdades natimortas

amor alça voo sem pena
explode em silêncios gordos
descola camadas de vidas inteiras
desenha nas paredes aranha, corujas e gatos

é tempo
(e eu sou tua)

segunda-feira, dezembro 31, 2012


que tengas manos largas para tomar los caminos
que tengas ojos tontos de mirar la memoria
que tengas palabras bañadas por las montañas
que seas montaña
que puedas acordarte de creer como moverlas
que seas los pies del otro
que seas la historia del otro
que seas también dignidad

y que traiga suerte la risa que guardé en tu oído,
la fuerza que puse en este abrazo

y  que tengas dudas para que jamás te escape tu verdad



quinta-feira, dezembro 27, 2012

fui parida para os dias frios
gestos dramáticos em notas de bolero
um vinho bom
vermelha é também a ideia
como o teu sangue 
fervendo palavras na minha boca

quarta-feira, novembro 28, 2012

sou só descaso
gosto de longos silêncios
música me enternece
beijo porque é bom
coleciono abismos
de mim é que tenho medo

quero os copos quebrados
algumas madrugadas
o braço sobre o corpo cansado
mansidão

sem laço que prenda a palavra
sem caixa que cale a canção

segunda-feira, novembro 19, 2012

por anos
perdi-me no ruído dos meus passos
na curva do meu umbigo
roía as unhas todas
enquanto ruíam os castelos
e as cartas que nunca mandei
das quais nunca li as respostas

então tuas mãos
e os olhos perderam a razão

noite é tudo
no sobre há sempre estrelas


domingo, novembro 18, 2012



naquela caixa eu guardei o tempo
um guardanapo amarrotado
algumas dores
a imagem de santa
meu sertão
todos os outros
passos

sem espaço para o contrário
lotei de luto as certezas
silêncio para respirar

tonta de engano
escrevo o teu nome
(palavrabraço)

poesia é só memória





sábado, novembro 17, 2012

não tenho medo dos teus olhos pueris
nem do teu corpo lasso
não tenho medo da falta

fujo é das janelas que abres
sol que se estilhaça minha nudez