sexta-feira, agosto 18, 2023

 quando fecho os olhos, ainda nos vejo rindo enquanto mentimos que somos um casal em busca de uma vida imperfeita nos azulejos antigos. as línguas entrelaçadas como braços num amor indesejado. nós na cama, nós em silêncio no café da manhã,  nós procurando um pedaço de corpo por sobre a mesa dos bares em calçadas sujas, nós desenhando em fotos de futuros caducos das cidades desconhecidas. nós. 

fora dos meus olhos febris sou a mulher lúcida que evita olhar para os topos das árvores e para os musgos que insistem em brotar entre as lajotas do pátio. 

nunca mais vou escrever saudade.

domingo, agosto 13, 2023

tem tempo,  Amor, que só quero dizer que tu descanse. desaperta o passo, desacelera o voo, que a vida agora existe. 

olha as plantas no pátio iluminado, as gatas que dormem nas cadeiras, alguns insetos que visitam o café que eu bebo todas as manhãs no degrau da soleira da porta. tira os sapatos, senta comigo (ou deita sobre a colcha de crochê colorida) e fecha teus olhos de dilúvio. 

depois de navegar, sempre é bom chegar em casa.

segunda-feira, agosto 07, 2023

          e se eu te amo com essa rudeza de bicho é porque ainda há em mim esse tanto de lava

segura-a delicado com teu dedos de pássaro

o que não escorregar entre eles é meu coração de pedra

é teu

sexta-feira, agosto 04, 2023

os nomes dos filmes escritos numa caderneta esquecida na última gaveta da mesa da entrada pelo desejo sonolento dos que não tem mais viço mas ainda assim querem as bocas as mãos um pedaço de pele qualquer tocando outro pedaço de pele qualquer que escapa numa noite fria. nunca tragadas em goles gargalhados pelo excesso de vinho as cenas numa sala escura. aquelas noites rasuram memórias (confusas) de uma felicidade clandestina.

segunda-feira, julho 10, 2023

e se eu tirar o dedo? e se eu cansada que estou só desistir e usar as palmas das mãos com todos os dedos pra cobrir meu rosto e recolher minhas lágrimas? o que explodirá sobre todos nós irá nos destruir? conseguiremos enxergar submersos nas toneladas de água e galhos e folhas e peixes,  confusos? saberemos nadar? conseguiremos respirar? buscaremos as mãos uns dos outros? eu estarei sem ar na culpa por ter deixado que a inundação descontrolada tomasse conta daquilo que acreditávamos que era nossa vida? bom-dia. comprou-o-pão? que-horas-tu-volta? também-te-amo. tomar-café-depois-das-6-vai-tirar-o-sono. estudar-é-importante. diante do dilúvio das agendas, dos planos, das impaciência. as fugas. 

debaixo d'água só sobrevivem as ruínas. 

ou quem vê é quem se movimenta. 


quem de nós?

sábado, maio 13, 2023

(porque eu leio cris lisboa)

lembra de onde te dói quando faz escuro e ninguém enxerga

e de quanto um abraço aquieta tuas angústias

e uma palavra boba te faz gargalhar por dias sozinha

anota e guarda no bolso onde fica o dinheiro, pra ser surpreendida no meio da correria

descansa também 

conforta os teus fantasmas, teus mais velhos conhecidos

a essa altura tu já sabe que ressentimento sempre passa

(conhecimento barato comprado numa prateleira de supermercado)

coloca uma saia que rode enquanto tu dança 

tu ainda dança 

e que tudo ainda gira sem controle, mesmo que tu não goste dessa ideia

envelhecer é deixar ir

(tu nunca usou relógio de pulso porque tinha sempre pressa: tu ainda lembra?)

está esfriando: volte a tomar chá antes de dormir.


segunda-feira, maio 01, 2023

no teu desenho meus pés em ponta pisam a beira do precipício. é nietzsche, tu explica diante do meu susto. (quando eu era criança morava no décimo quinto andar e sentava na mureta da sacada balançando as pernas). tua voz cansada se espalha pelas minhas costas nuas enquanto repetem a imagem roubada: é preciso ter asas quando se ama o Abismo. rimos de bobos. e escondo meu rosto em teu abraço para sobreviver em terra firme.

fim.

no sonho o cativeiro queima
o pavor espremido sobre a vidraça
denuncia desejos estúpidos
agora tudo
chama
risco
mostra

permaneço até ser só labareda?
escancaro a porta para o estranho entrar?

sexta-feira, abril 28, 2023

tua voz ainda ecoa como o tapa 
que nunca houve mas podia
e da mesma mão que não batia
estirava-se o braço que acolhia
abrigo dos outros perigos que o mundo 
                                           [todinho se fazia
as gentes, a fome, a solidão,  a doença,  
a loucura, meus próprios nãos 
o sexo,  a mãe, todo tipo de assombração
mas como século a página vira
e o corpo escolhe suas nudezas
não encolhe
não silencia
sem medo 
o corpo escolhe resistir 
e não permitir nunca mais deixar morrer


quinta-feira, abril 27, 2023

   meu bem, 

   às vezes estou bem. ainda não sei como escrever medo e desejo porque é outono e faz quente. existir é deixar de ser invisível. tenho me perguntado como soltar a palavra acuada, acusada. deixá-la sair assim: pelada, desavergonhada, safada, pra falar que gosta, só gosta. como verbar o corpo: beijar, dormir, sussurrar, sorrir, conversar, olhar, roncar, beber, segredar, gozar, estar, sem dever depois? 

(por isso disfarço e alimento vícios secretos inconfessáveis)

não sei dizer mais, disse dois ou três poemas atrás. então engulo. amarga. regurgito.  ácida. engulo de novo.  ressentida. calo e vomito. e pela minha pele queimada escorrem suor e culpa, ardem vergonhas flamejantes. 

grito tão incompetente que.




(assino agora essa carta de horror. nome de novela mexicana. propício.)


                   A Impostora 



p.s. poderiam ser dois textos, mas é um só. decidi no caminho. 

segunda-feira, abril 24, 2023

roupas lavadas lotando o varal
ainda úmidas de tormenta 
bafo quente
tua boca, minha nuca
beijo de dias que esquecem de terminar

outono é silêncio 

sexta-feira, abril 07, 2023

havia tempo que tinha esquecido como dizer bem. antes eu sabia que só sorrir no rabo de olho era um modo de avesso certo. era um troço de ser eu pra além da casca: um pouco casco, um pouco pinça, um pouco fogo queimando no fundo daquele poço que quase ninguém visita. Abismo era uma palavra que eu gostava tanto. Deserto também. hoje eu prefiro as minúsculas: um abraço no domingo, um cochilo, pouco susto. voo baixo, sem gravidades. olha a pressão, olha. é outono e é bom porque faz frio aqui. frio é minúscula também. como beijar, dizer, dormir, esperar, envelhecer. envelhecer pode ser bonito. eu li. 

escrever é um jeito de enxergar pra fora.

sábado, março 11, 2023

te contei?

escrevo como quem grita 
como quem lança os discos pela janela
e rasga as roupas
e quebra as louças
(levou dez anos pra montar o aparelho de jantar, lembra?)
vizinhos se entreolham assustados
cochicham estarrecidos
a, as palavras pretensiosas

escrevo por desvario
exaustão, descaso, ranço, vingança 
- nunca amor -
drama é sempre enchente
- canceriana, né? - você disse
- um pouco carta, você completa
eu meneio um sim, simpatiquinha

cartas de amor são ridículas!

só às vezes me guardo
caixa de silêncio
gaveta
caneta sem tinta 
quarto escuro com porta fechada

porque dizer, como a vida, 
é perigoso

(ando fingindo mal, percebe?)


quarta-feira, janeiro 25, 2023

resposta

nessa curva onde teu olho se perde
e nessa outra aqui, ainda decorada
nos meus tremores
nos meus interiores
na minha travessia até o infinito
 
meu corpo inteiro

terça-feira, abril 05, 2022

.

Existe um tempo entre o que não se sabe que vai acontecer, que só anuncia, e espera. O tempo antes de um grande temporal. O tempo antes que inicie o trabalho de parto. O tempo antes que termine o último dia de trabalho do ano. O último dia de trabalho da vida. O tempo que antecede a última respiração. Tempos do suspenso. Quando arrumava a cama, gostava de sacudir os lençóis no quarto da casa de madeira da avó. Por muito tempo ficavam levitando no ar, sob o sol que entrava pela janela, as formas que brilhavam, giravam, subiam e desciam. Até tudo se acomodar. Novamente. Em nenhum outro lugar nunca mais foi assim. Depois foi só poeira. Na memória o conforto para a mudança e a compreensão de que tudo vai descansar diante dos meus olhos espantados. Uma vida toda guardada naquele quarto de vó, adormecida e despertada tantas vezes.

. Até que eu precisei crescer. E todas as outras mortes vieram. 

 agora

segunda-feira, abril 04, 2022

Uma taça não é só uma taça

é pouco de corpo

um colo

o desejo

uma vitória 


É um brinde.  

Uma de outra que aguarda

anúncio, início, fim

memória


Uma taça é só uma taça.


Amor em nosso assoalho

estilhaçado


agora

Li muitos textos sobre caixas.
Profundos, delicados, crueis.
Caixas pra classificar problemas, pra recortar e guardar palavras, pra prender o mal ou revelar a esperança.

Uma encaixotou uma mulher. Outra, retratos de família. Houve a das memórias da menina, com a bailarina e a música girando.

Sobre as minhas ninguém contou. 
Aprisionei em alguma a dor da filha perdida entre as quinquilharias 
e as mentiras servidas em almoço de domingo. Na outra acomodei a mãe chorando na sua escuridão com a chave perdida. 

Guardo caixas vazias, com bijouterias quebradas, com fotografias caóticas e desordenadas. Não conversam mais sobre quem são as pessoas que comemoram aniversários ou se abraçam como se fossem íntimas. Dali só as crianças permanecem. Sementes, se salvaram da amargura e do ressentimento. Não são fantasmas impressos no vazio do tempo. Viraram nome próprio. Mulher. Sobrevivente das mentiras silenciadas. Nós. Agarram vida com dedos de quem arrebenta segredos, destroça dores antigas e devora misérias familiares com dentes  furiosos.

O mundo é parido dentro do estômago de quem arrancou os cordões.

domingo, abril 03, 2022

qual enrodilhou-se na cama
qual preparou o café
qual abraçou a criança
qual retribuiu o beijo
qual engoliu o grito
qual calou o choro
qual voltou do trabalho
qual gozou
qual escreveu as palavras
qual pediu desculpas
qual pediu licença
qual pediu as horas
qual perdeu as horas
qual perdeu tempo

O que passou
Sem que ela soubesse
qual

sexta-feira, maio 24, 2013

era um inseto
minúsculo
o que rompeu sua pele
o que bebeu do seu sangue
impetuoso em desejo

era um inseto
olho não via
e devorava sua palavra
e transformava sua rotina
ardendo as asas escuras

era um inseto
sequer se sabia

era um inseto
mas existia
nas frestas do dia-a-dia
obscuro nas nossas cortinas


segunda-feira, maio 06, 2013

e é porque sei que tudo é finito
que tenho medo
da noite sempre curta
dos risos vezes pouco
daquela canção perdida
tua voz rouquejando na memória
os desamores debulhados

tenho medo porque grita tempo
a minha pele, os meus cabelos
porque fé também é cansaço

medo do tanto querer
da falta do gesto
das palavras prometidas
no verso da página
no avesso da vida minha
que é também vida tua

tenho medo do que é passo
do que é salto
(ainda que ame o profundo)
dessa travessia que meu corpo guarda
quando ainda nem havia nós

no silêncio sublima-se o Amor destinado
com susto de quem espera passar a escuridão