sexta-feira, janeiro 05, 2024
domingo, novembro 12, 2023
sexta-feira, outubro 27, 2023
deixar a falta como quem deixa ir o inverno, com saudade do calor do abraço quente que protege do minuano arranhando a pele. deixar ir como quem embala com cuidado as boas lembranças. a mão nas minhas costas dizendo que tudo vai ficar bem. café frio. riso. carnaval gritando amor em um pote de conserva. amor-remédio, ponte, embarcação. as palavras erradas. aliterações. as fotografias. desejo de sorvete em noite escura. todos os fósforos queimados. dois animais selvagens no meio da rua. uma caneca quebrada. fechar em silêncio a caixa em que eu escrevi muitas vezes fim.
domingo, outubro 22, 2023
sei bem sobre encontrar caminho pra não voltar. aprendi cedo a impermanência. pequena já costumava trocar os calçados nos pés e achava divertido tentar correr com eles até estatelar. tenho algumas cicatrizes: sempre o mesmo joelho muitas vezes ralado, onze pontos no supercílio, um coração piegas. foi assim que aprendi a mentir o riso; esse soluço. como chorar com o chinelo direito no pé esquerdo.
como faz pra estar quando tudo dentro é fissura?
sexta-feira, outubro 13, 2023
nem mais bolacha,
nem pra dormir fora,
nem pra deixar a luz acesa
não falar
não rir alto
ser agradável
ser ajeitadinha
(bonita não é)
ser adequada
frequentar
comer sem descolar os cotovelos
(quem tem asa é galinha)
minha avó criava muitos bichos. morava numa casa pré-fabricada que cheirava a quesosene uma vez por ano. eu cheirava a suor, poeira e Kollynos. os dias acabavam no rio às dez horas da noite. as crianças gritavam nas ruas inteiras, encondiam-se, encontravam-se, empulgavam-se com os cachorros e metiam-se com os pássaros nos ninhos. eu tinha medo de sapo, de mboitatá e da foto do tio-avô morto, que ficava debaixo da renda da cortina cor de rosa que cobria as paredes de dentro. minha avó era um mundo inteiro e cheirava a alho, pão caseiro e colônia de rosas barata.
lá, migalhas eram sobre galinhas e codornas. nunca sobre amor, essa fartura.
terça-feira, outubro 10, 2023
uma varanda larga onde ela gostava de espalhar as pedras que buscava na rua cheia de terra
procurava as mais redondas para fazer delas o que inventava: um cachorro gordo, um pai que estava, uma mãe carinhosa, o irmãozinho que ria ao encontro dos abraços, amigas com quem dividir um sanduíche no recreio, um avô nunca conhecido
enquanto as rolava sobre o ladrilho vermelho, entre seus dedos infantis, preenchia de mentiras os vazios que carregaria por toda a sua existência
sábado, outubro 07, 2023
nem dobrar com cuidado as palavras para guardá-las delicadas nas gavetas das coisas que doem
prometerei não sorrir diante das promessas nunca cumpridas, dos beijos roubados em muros vadios, das noites mal dormidas pelos sonhos desfeitos
prometerei ser outro nome qualquer, outro livro abandonado na estante, outra imagem roubada entre tantas outras que os olhos mal viram
prometerei o desejado silêncio em constrangedoras conversas
e não oferecer mais nenhuma pergunta nas páginas de um bloco de notas
aquele que eu nomeei como "futuro"
(o mesmo onde agora eu anoto a lista de compras e as contas a pagar)
sexta-feira, outubro 06, 2023
terça-feira, outubro 03, 2023
aquela lua bonita
uma saia amarela-ovo
a lagarta listrada do poema
um tapete de folhas miúdas na calçada
a rádio cantava dragão tatuado no braço
outras aves noturnas, voejai
naveguei nos olhos dos meus gatos
verde mar profundo
em chamas
estrela feito amor é algo que nasce morta e a gente toda acha bonita de se ver
domingo, setembro 24, 2023
quarta-feira, setembro 20, 2023
eu queria escrever sobre as cores dos teus olhos. mas é como se teu rosto se vestisse daqueles aneis ordinários de camelôs cujas pedras alteram a tonalidade conforme o humor. tu me explicas que é a luz que ora colore de castanho o verde intenso ou enche de transparência tanta cor. uma floresta inteira em redemoinho. quando tu mentes eles escurecem e eu também. teus olhos dizem mais do que teu corpo todo. é como eu quando escrevo. daqui onde estou espio teus olhos amarelos e úmidos diante da palavra amor.
domingo, setembro 17, 2023
enovelado inteiro o meu pavor no teu abraço
o corpo se debruça sobre a murada do andar mais alto do edifício
a praça da infância, um rio que guarda uma cidade inteira, um navio fantasma com suas bandeiras coloridas, alguns prédios amarelos guardando história
embaixo tudo é estático e está em movimento
como um bonsai (ela me disse)
de longe eu nunca tenho medo da vida
que flui violenta sob as calçadas do centro da cidade
os olhos já saltaram, suicidas
os pés seguem fincados na terra
a sanidade que resta
sexta-feira, setembro 15, 2023
numa ocasião minha mãe me levou numa festa de meninas ricas. num quarto de brinquedos havia muitas bonecas, tantas, que eu nem conseguia contar. não podíamos pegar. só a criança da casa, empertigada e receptiva, escolhia quais quais apresentar, quais oferecer ao toque. a grande atração, no centro do quarto era uma casinha - inha - porque era do tamanho para algumas das menores bonecas morarem: uma família inteira. para nós, era quase da nossa altura, de tão grande. pelo teto que se abria, ela manipulava as moradoras, mãe, pai, filhinhas, gato, cachorrinho: fabulava, dava-lhe os direito à atuação diante dos nossos olhos espantados e mãos de quem assiste a tudo com ansiedade. nem as bonecas nem nós tínhamos escolha sobre o enredo mil vezes ensaiado, a não ser viver o espanto de sermos deliciosamente controladas por horas sob a lusco-fusco da luzinha amarela que vinha de dentro do brinquedo. éramos todas miúdas marionetes circulando pelos luxuosos cômodos daquela mansão em uma tarde festiva. "agora está na hora de dormir, filhinha, que o papai vai te contar uma história" "que tal fazermos um bolo juntas para o surpreendermos quando voltar do serviço?" "auauau" "que malandro, quebrou meu vaso chinês" "vamos para a serra dar um passeio?". a, a crueldade infantil.
aquele talvez tenha sido o primeiro momento em que esperei desesperadamente ser outra. uma pequena boneca de plástico de origem duvidosa cuja vida perfeita era, por algumas horas manipulada diante dos meus olhos encantados sob a lâmpada confortável das tardes.
domingo, setembro 10, 2023
sábado, setembro 09, 2023
segunda-feira, agosto 28, 2023
sexta-feira, agosto 25, 2023
domingo, agosto 20, 2023
Amor é caos. im-per-ma-nên-cia. palavra guardada sempre esquecida. travessia apagada no corpo de uma ponte.
Amor são quase 365 barquinhos. navegar é uma escolha sobre remar, flutuar ou se atirar em águas profundas. o azul sepulta o corpo (alguém disse).
Amor é remédio (alguém disse). o Amor ventando tudo, borrando os sustos. o Amor quando bebe o café morno em silêncio lambe as feridas abertas.
Amor é nós no escuro do quarto. silêncio.
Amor é caos no escuro. amarelo.
o Amor é velho (tu avisou).
Amor é princípio (tuas mãos nas minhas costas)
Amor é meio(rimos de bobos)
Amor é fim (e tudo fica bem)
sábado, agosto 19, 2023
quando eu era criança, eu adorava perfurar papéis. pequeninos pontinhos que minha mãe e eu guardávamos, enchendo caixas com as minhas horas ociosas. era a forma que ela encontrava para continuar trabalhando enquanto eu permanecia entretida na minha missão em fazer confetes.
uma vez por ano, a cidade fria abria as janelas e sujava de partículas de alegria o ar e as ruas úmidas. meus olhos pendurados no parapeito da janela envaideciam-se, artistas.
para sempre aquela fotografia moveu-se suave na memória da menina que às vezes desperta no meu peito diante da felicidade miúda do cotidiano.
