domingo, setembro 17, 2023

 enovelado inteiro o meu pavor no teu abraço 

o corpo se debruça sobre a murada do andar mais alto do edifício

a praça da infância, um rio que guarda uma cidade inteira, um navio fantasma com suas bandeiras coloridas, alguns prédios amarelos guardando história

embaixo tudo é estático e está em movimento 

como um bonsai (ela me disse)

de longe eu nunca tenho medo da vida

que flui violenta sob as calçadas do centro da cidade


os olhos já saltaram, suicidas

os pés  seguem fincados na terra

a sanidade que resta

sexta-feira, setembro 15, 2023

 numa ocasião minha mãe me levou numa festa de meninas ricas. num quarto de brinquedos havia muitas bonecas, tantas, que eu nem conseguia contar. não podíamos pegar. só a criança da casa, empertigada e receptiva, escolhia quais quais apresentar, quais oferecer ao toque. a grande atração,  no centro do quarto era uma casinha - inha - porque era do tamanho para algumas das menores bonecas morarem: uma família inteira. para nós, era quase da nossa altura, de tão grande. pelo teto que se abria, ela manipulava as moradoras, mãe, pai, filhinhas, gato, cachorrinho: fabulava, dava-lhe os direito à atuação diante dos nossos olhos espantados e mãos de quem assiste a tudo com ansiedade. nem as bonecas nem nós tínhamos escolha sobre o enredo mil vezes ensaiado, a não ser viver o espanto de sermos deliciosamente controladas por horas sob a lusco-fusco da luzinha amarela que vinha de dentro do brinquedo. éramos todas miúdas marionetes circulando pelos luxuosos cômodos daquela mansão em uma tarde festiva. "agora está na hora de dormir, filhinha, que o papai vai te contar uma história" "que tal fazermos um bolo juntas para o surpreendermos quando voltar do serviço?" "auauau" "que malandro, quebrou meu vaso chinês" "vamos para a serra dar um passeio?". a, a crueldade infantil.

aquele talvez tenha sido o primeiro momento em que esperei desesperadamente ser outra. uma pequena boneca de plástico de origem duvidosa cuja vida perfeita era, por algumas horas manipulada diante dos meus olhos encantados sob a lâmpada confortável das tardes.

domingo, setembro 10, 2023

beijar tua boca com língua de faca, enquanto olho um pedaço de azul nascer no meio das raízes que insistem em fazer caminhos entre nós 

- mais de cem metros sob os pés

pior que figueira

(tu me disse)


esperar que o amor escorregue por elas

feito água que sou


e incendeie a casa inteira

sábado, setembro 09, 2023

 amor

teu nome redondo em minha saliva

princípio de língua

ora trono, ora antro 


antagônico

sábado, setembro 02, 2023

           acordo pra olhar o mar

a ressaca tem a cor dos teus olhos

segunda-feira, agosto 28, 2023

 uma alegriazinha feito sol que entra sorrateiro nas frestas vagabundas de veneziana. bom dia. luz bastante. feito mãos que se procuram enquanto uma quadra inteira é percorrida. passadas rápidas descompassadas. café. feito as do peito no primeiro abraço. eu lembro. quentequente. sol de domingo.

sexta-feira, agosto 25, 2023

 e eu pensando que antes é que sabia ir. uma grande mentirosa diante de um grande nariz. o que nunca fui é de partir: sou das que finca pé, firma ponte, espraia raízes - e até quando àgua; inundação. 

domingo, agosto 20, 2023

 Amor é caos. im-per-ma-nên-cia. palavra guardada sempre esquecida. travessia apagada no corpo de uma ponte. 

Amor são quase 365 barquinhos. navegar é uma escolha sobre remar, flutuar ou se atirar em águas profundas. o azul sepulta o corpo (alguém disse). 

Amor é remédio (alguém disse). o Amor ventando tudo, borrando os sustos. o Amor quando bebe o café morno em silêncio lambe as feridas abertas.  

Amor é nós no escuro do quarto. silêncio. 

Amor é caos no escuro. amarelo. 

o Amor é  velho (tu avisou).


Amor é princípio (tuas mãos nas minhas costas) 

Amor é meio(rimos de bobos) 

Amor é fim (e tudo fica bem)

sábado, agosto 19, 2023

 quando eu era criança, eu adorava perfurar papéis. pequeninos pontinhos que minha mãe e eu guardávamos,  enchendo caixas com as minhas horas ociosas. era a forma que ela encontrava para continuar trabalhando enquanto eu permanecia entretida na minha missão em fazer confetes. 

uma vez por ano, a cidade fria abria as janelas e sujava de partículas de alegria o ar e as ruas úmidas. meus olhos pendurados no parapeito da janela envaideciam-se, artistas. 

para sempre aquela fotografia moveu-se suave na memória da menina que às vezes desperta no meu peito diante da felicidade miúda do cotidiano.


sexta-feira, agosto 18, 2023

 quando fecho os olhos, ainda nos vejo rindo enquanto mentimos que somos um casal em busca de uma vida imperfeita nos azulejos antigos. as línguas entrelaçadas como braços num amor indesejado. nós na cama, nós em silêncio no café da manhã,  nós procurando um pedaço de corpo por sobre a mesa dos bares em calçadas sujas, nós desenhando em fotos de futuros caducos das cidades desconhecidas. nós. 

fora dos meus olhos febris sou a mulher lúcida que evita olhar para os topos das árvores e para os musgos que insistem em brotar entre as lajotas do pátio. 

nunca mais vou escrever saudade.

domingo, agosto 13, 2023

tem tempo,  Amor, que só quero dizer que tu descanse. desaperta o passo, desacelera o voo, que a vida agora existe. 

olha as plantas no pátio iluminado, as gatas que dormem nas cadeiras, alguns insetos que visitam o café que eu bebo todas as manhãs no degrau da soleira da porta. tira os sapatos, senta comigo (ou deita sobre a colcha de crochê colorida) e fecha teus olhos de dilúvio. 

depois de navegar, sempre é bom chegar em casa.

segunda-feira, agosto 07, 2023

          e se eu te amo com essa rudeza de bicho é porque ainda há em mim esse tanto de lava

segura-a delicado com teu dedos de pássaro

o que não escorregar entre eles é meu coração de pedra

é teu

sexta-feira, agosto 04, 2023

os nomes dos filmes escritos numa caderneta esquecida na última gaveta da mesa da entrada pelo desejo sonolento dos que não tem mais viço mas ainda assim querem as bocas as mãos um pedaço de pele qualquer tocando outro pedaço de pele qualquer que escapa numa noite fria. nunca tragadas em goles gargalhados pelo excesso de vinho as cenas numa sala escura. aquelas noites rasuram memórias (confusas) de uma felicidade clandestina.

segunda-feira, julho 10, 2023

e se eu tirar o dedo? e se eu cansada que estou só desistir e usar as palmas das mãos com todos os dedos pra cobrir meu rosto e recolher minhas lágrimas? o que explodirá sobre todos nós irá nos destruir? conseguiremos enxergar submersos nas toneladas de água e galhos e folhas e peixes,  confusos? saberemos nadar? conseguiremos respirar? buscaremos as mãos uns dos outros? eu estarei sem ar na culpa por ter deixado que a inundação descontrolada tomasse conta daquilo que acreditávamos que era nossa vida? bom-dia. comprou-o-pão? que-horas-tu-volta? também-te-amo. tomar-café-depois-das-6-vai-tirar-o-sono. estudar-é-importante. diante do dilúvio das agendas, dos planos, das impaciência. as fugas. 

debaixo d'água só sobrevivem as ruínas. 

ou quem vê é quem se movimenta. 


quem de nós?

sábado, maio 13, 2023

(porque eu leio cris lisboa)

lembra de onde te dói quando faz escuro e ninguém enxerga

e de quanto um abraço aquieta tuas angústias

e uma palavra boba te faz gargalhar por dias sozinha

anota e guarda no bolso onde fica o dinheiro, pra ser surpreendida no meio da correria

descansa também 

conforta os teus fantasmas, teus mais velhos conhecidos

a essa altura tu já sabe que ressentimento sempre passa

(conhecimento barato comprado numa prateleira de supermercado)

coloca uma saia que rode enquanto tu dança 

tu ainda dança 

e que tudo ainda gira sem controle, mesmo que tu não goste dessa ideia

envelhecer é deixar ir

(tu nunca usou relógio de pulso porque tinha sempre pressa: tu ainda lembra?)

está esfriando: volte a tomar chá antes de dormir.


segunda-feira, maio 01, 2023

no teu desenho meus pés em ponta pisam a beira do precipício. é nietzsche, tu explica diante do meu susto. (quando eu era criança morava no décimo quinto andar e sentava na mureta da sacada balançando as pernas). tua voz cansada se espalha pelas minhas costas nuas enquanto repetem a imagem roubada: é preciso ter asas quando se ama o Abismo. rimos de bobos. e escondo meu rosto em teu abraço para sobreviver em terra firme.

fim.

no sonho o cativeiro queima
o pavor espremido sobre a vidraça
denuncia desejos estúpidos
agora tudo
chama
risco
mostra

permaneço até ser só labareda?
escancaro a porta para o estranho entrar?

sexta-feira, abril 28, 2023

tua voz ainda ecoa como o tapa 
que nunca houve mas podia
e da mesma mão que não batia
estirava-se o braço que acolhia
abrigo dos outros perigos que o mundo 
                                           [todinho se fazia
as gentes, a fome, a solidão,  a doença,  
a loucura, meus próprios nãos 
o sexo,  a mãe, todo tipo de assombração
mas como século a página vira
e o corpo escolhe suas nudezas
não encolhe
não silencia
sem medo 
o corpo escolhe resistir 
e não permitir nunca mais deixar morrer


quinta-feira, abril 27, 2023

   meu bem, 

   às vezes estou bem. ainda não sei como escrever medo e desejo porque é outono e faz quente. existir é deixar de ser invisível. tenho me perguntado como soltar a palavra acuada, acusada. deixá-la sair assim: pelada, desavergonhada, safada, pra falar que gosta, só gosta. como verbar o corpo: beijar, dormir, sussurrar, sorrir, conversar, olhar, roncar, beber, segredar, gozar, estar, sem dever depois? 

(por isso disfarço e alimento vícios secretos inconfessáveis)

não sei dizer mais, disse dois ou três poemas atrás. então engulo. amarga. regurgito.  ácida. engulo de novo.  ressentida. calo e vomito. e pela minha pele queimada escorrem suor e culpa, ardem vergonhas flamejantes. 

grito tão incompetente que.




(assino agora essa carta de horror. nome de novela mexicana. propício.)


                   A Impostora 



p.s. poderiam ser dois textos, mas é um só. decidi no caminho. 

segunda-feira, abril 24, 2023

roupas lavadas lotando o varal
ainda úmidas de tormenta 
bafo quente
tua boca, minha nuca
beijo de dias que esquecem de terminar

outono é silêncio 

sexta-feira, abril 07, 2023

havia tempo que tinha esquecido como dizer bem. antes eu sabia que só sorrir no rabo de olho era um modo de avesso certo. era um troço de ser eu pra além da casca: um pouco casco, um pouco pinça, um pouco fogo queimando no fundo daquele poço que quase ninguém visita. Abismo era uma palavra que eu gostava tanto. Deserto também. hoje eu prefiro as minúsculas: um abraço no domingo, um cochilo, pouco susto. voo baixo, sem gravidades. olha a pressão, olha. é outono e é bom porque faz frio aqui. frio é minúscula também. como beijar, dizer, dormir, esperar, envelhecer. envelhecer pode ser bonito. eu li. 

escrever é um jeito de enxergar pra fora.

sábado, março 11, 2023

te contei?

escrevo como quem grita 
como quem lança os discos pela janela
e rasga as roupas
e quebra as louças
(levou dez anos pra montar o aparelho de jantar, lembra?)
vizinhos se entreolham assustados
cochicham estarrecidos
a, as palavras pretensiosas

escrevo por desvario
exaustão, descaso, ranço, vingança 
- nunca amor -
drama é sempre enchente
- canceriana, né? - você disse
- um pouco carta, você completa
eu meneio um sim, simpatiquinha

cartas de amor são ridículas!

só às vezes me guardo
caixa de silêncio
gaveta
caneta sem tinta 
quarto escuro com porta fechada

porque dizer, como a vida, 
é perigoso

(ando fingindo mal, percebe?)


quarta-feira, janeiro 25, 2023

resposta

nessa curva onde teu olho se perde
e nessa outra aqui, ainda decorada
nos meus tremores
nos meus interiores
na minha travessia até o infinito
 
meu corpo inteiro

terça-feira, abril 05, 2022

.

Existe um tempo entre o que não se sabe que vai acontecer, que só anuncia, e espera. O tempo antes de um grande temporal. O tempo antes que inicie o trabalho de parto. O tempo antes que termine o último dia de trabalho do ano. O último dia de trabalho da vida. O tempo que antecede a última respiração. Tempos do suspenso. Quando arrumava a cama, gostava de sacudir os lençóis no quarto da casa de madeira da avó. Por muito tempo ficavam levitando no ar, sob o sol que entrava pela janela, as formas que brilhavam, giravam, subiam e desciam. Até tudo se acomodar. Novamente. Em nenhum outro lugar nunca mais foi assim. Depois foi só poeira. Na memória o conforto para a mudança e a compreensão de que tudo vai descansar diante dos meus olhos espantados. Uma vida toda guardada naquele quarto de vó, adormecida e despertada tantas vezes.

. Até que eu precisei crescer. E todas as outras mortes vieram. 

 agora

segunda-feira, abril 04, 2022

Uma taça não é só uma taça

é pouco de corpo

um colo

o desejo

uma vitória 


É um brinde.  

Uma de outra que aguarda

anúncio, início, fim

memória


Uma taça é só uma taça.


Amor em nosso assoalho

estilhaçado


agora

Li muitos textos sobre caixas.
Profundos, delicados, crueis.
Caixas pra classificar problemas, pra recortar e guardar palavras, pra prender o mal ou revelar a esperança.

Uma encaixotou uma mulher. Outra, retratos de família. Houve a das memórias da menina, com a bailarina e a música girando.

Sobre as minhas ninguém contou. 
Aprisionei em alguma a dor da filha perdida entre as quinquilharias 
e as mentiras servidas em almoço de domingo. Na outra acomodei a mãe chorando na sua escuridão com a chave perdida. 

Guardo caixas vazias, com bijouterias quebradas, com fotografias caóticas e desordenadas. Não conversam mais sobre quem são as pessoas que comemoram aniversários ou se abraçam como se fossem íntimas. Dali só as crianças permanecem. Sementes, se salvaram da amargura e do ressentimento. Não são fantasmas impressos no vazio do tempo. Viraram nome próprio. Mulher. Sobrevivente das mentiras silenciadas. Nós. Agarram vida com dedos de quem arrebenta segredos, destroça dores antigas e devora misérias familiares com dentes  furiosos.

O mundo é parido dentro do estômago de quem arrancou os cordões.

domingo, abril 03, 2022

qual enrodilhou-se na cama
qual preparou o café
qual abraçou a criança
qual retribuiu o beijo
qual engoliu o grito
qual calou o choro
qual voltou do trabalho
qual gozou
qual escreveu as palavras
qual pediu desculpas
qual pediu licença
qual pediu as horas
qual perdeu as horas
qual perdeu tempo

O que passou
Sem que ela soubesse
qual

sexta-feira, maio 24, 2013

era um inseto
minúsculo
o que rompeu sua pele
o que bebeu do seu sangue
impetuoso em desejo

era um inseto
olho não via
e devorava sua palavra
e transformava sua rotina
ardendo as asas escuras

era um inseto
sequer se sabia

era um inseto
mas existia
nas frestas do dia-a-dia
obscuro nas nossas cortinas


segunda-feira, maio 06, 2013

e é porque sei que tudo é finito
que tenho medo
da noite sempre curta
dos risos vezes pouco
daquela canção perdida
tua voz rouquejando na memória
os desamores debulhados

tenho medo porque grita tempo
a minha pele, os meus cabelos
porque fé também é cansaço

medo do tanto querer
da falta do gesto
das palavras prometidas
no verso da página
no avesso da vida minha
que é também vida tua

tenho medo do que é passo
do que é salto
(ainda que ame o profundo)
dessa travessia que meu corpo guarda
quando ainda nem havia nós

no silêncio sublima-se o Amor destinado
com susto de quem espera passar a escuridão



sábado, março 09, 2013

como cartas que deveriam ser esquecidas
amassados foram os sonhos nas linhas das mãos
sob as tintas vivas da paredes
cochicharam sua sede, uma rosa vermelha, arroz
promessas de mãos dadas em ruas de um país não muito distante

basium ad infinitum
o tempo pode ser cura ou veneno
xícara de chá na madrugada
o silêncio das pequenas solidões tocava na vitrola
pra fazer passar as horas
pra fazer passar a dor

risco

domingo, março 03, 2013

então as palavras romperam a casa como aves libertas
e revelaram os corpos nus
nem era noite
cuspiram sobre as lágrimas contidas
rasgaram verdades natimortas

amor alça voo sem pena
explode em silêncios gordos
descola camadas de vidas inteiras
desenha nas paredes aranha, corujas e gatos

é tempo
(e eu sou tua)

segunda-feira, dezembro 31, 2012


que tengas manos largas para tomar los caminos
que tengas ojos tontos de mirar la memoria
que tengas palabras bañadas por las montañas
que seas montaña
que puedas acordarte de creer como moverlas
que seas los pies del otro
que seas la historia del otro
que seas también dignidad

y que traiga suerte la risa que guardé en tu oído,
la fuerza que puse en este abrazo

y  que tengas dudas para que jamás te escape tu verdad



quinta-feira, dezembro 27, 2012

fui parida para os dias frios
gestos dramáticos em notas de bolero
um vinho bom
vermelha é também a ideia
como o teu sangue 
fervendo palavras na minha boca

quarta-feira, novembro 28, 2012

sou só descaso
gosto de longos silêncios
música me enternece
beijo porque é bom
coleciono abismos
de mim é que tenho medo

quero os copos quebrados
algumas madrugadas
o braço sobre o corpo cansado
mansidão

sem laço que prenda a palavra
sem caixa que cale a canção

segunda-feira, novembro 19, 2012

por anos
perdi-me no ruído dos meus passos
na curva do meu umbigo
roía as unhas todas
enquanto ruíam os castelos
e as cartas que nunca mandei
das quais nunca li as respostas

então tuas mãos
e os olhos perderam a razão

noite é tudo
no sobre há sempre estrelas


domingo, novembro 18, 2012



naquela caixa eu guardei o tempo
um guardanapo amarrotado
algumas dores
a imagem de santa
meu sertão
todos os outros
passos

sem espaço para o contrário
lotei de luto as certezas
silêncio para respirar

tonta de engano
escrevo o teu nome
(palavrabraço)

poesia é só memória





sábado, novembro 17, 2012

não tenho medo dos teus olhos pueris
nem do teu corpo lasso
não tenho medo da falta

fujo é das janelas que abres
sol que se estilhaça minha nudez





domingo, novembro 11, 2012

o corpo pede mais sede
porque a vontade é rouca
como último gemido
o corpo entoa rituais
evoca palavras em fúria
germina silêncios ancestrais
o corpo é instrumento
é página
o corpo é memória
e tem fome
respira
desprende-se blues
o corpo é caos
cúmplice diante do secreto
abre os olhos e se faz cristal
o corpo é espelho
é esfinge
é dois
é bom




domingo, outubro 07, 2012

Destranquei o bolero
e as palavras furiosas
libertei o corpo e a sede
dancei porque ainda havia ar

Anoiteci

Serenidade é saber que todo dia é fim


sábado, setembro 08, 2012

Ando tão cansada de mim (imimi) que sou capaz até de ser prosa.

sexta-feira, setembro 07, 2012

tentei te esquecer
escrevi sobre os objetos da casa
mas ainda havia o teu cigarro no cinzeiro
os pelos do teu peito no chão do chuveiro
olhei pro sol e ele tinha o gosto do teu suor
o sabiá insistia em te despertar na árvore em frente
(era a cotovia?)
o risco no bloco de anotações
as pedras da calçada da minha rua
a garrafa, o mapa, a canção
em tudo havia tua mão gentil

Descobri então a retroescavadeira
indolor em sua força
insensível à minha dor clichê
delicada garra febril
deliciosa máquina
cavou em minha poesia o vazio
e te arrancou do meu peito fértil


sábado, agosto 25, 2012

Enquanto você não vem
eu arrumo os caminhos
desenho flores nas paredes da casa vazia
e beijo-as
guardo as palavras insensatas nas caixas verdes
Não derramo lágrima
(que já chove sobre a árvore da frente)
Não sofro a falta

espera é uma madrugada quente em agosto

segunda-feira, agosto 20, 2012


eu te direi não
construirei edifício sólido
onde viverei longe dos teu lábios
do teu cheiro de palavra e mar
do teu gosto de abismo

Homem
eu direi não aos teus olhos tristes
ao teu canto de ordem
aos pássaros dos teus cabelos negros
e serei forte ao teu abraço

eu digo não
nem medo mais tenho

quarta-feira, agosto 15, 2012


beijo teus caminhos com ares de senhorita
serpenteio os cabelos de ideias roucas
bebo tua boca porque tenho sede
(dentro é deserto)
te canto histórias de morrer insônia
e me fazes a mulher dos abraços
e te fazes cego
enquanto tudo é engano

Amor sem medo é altura





segunda-feira, agosto 13, 2012

nem teus olhos febris
a pedra no meio da estrada
os ais de um gozo farto
a tua pele salgada
as pequenas promessas
um canto de madrugada
as minhas pernas abertas
a porta escancarada
estas palavras
aquela que foi calada


eu tenho as cicatrizes
de todas as putas guardadas
eu tenho a chave da caixa
há muito tempo trancada
eu sangro a veia que pulsa
escrevo a tua chaga
eu amo teu corpo cansado
eu beijo a tua boca molhada
porque eu não valho nada


quinta-feira, agosto 09, 2012

Do estômago brotaram as palavras de todas as cores
trancadas a chave e arrependimentos

O que ela sabia é que tinha pouco
as cartas de Frida
um beijo ébrio numa tarde qualquer
um resto de ar

Abriu a mala onde guardava as verdades
lá dentro escondeu o Amor





terça-feira, agosto 07, 2012

Olhava para o relógio desmontado cuidadosamente
as  engrenagens como peças de quebra-cabeça
molas adormecidas abraçadas aos ponteiros
Nada, ali, corria implacável
gritando que já era tarde

Era a primeira vez que não entendia
que os olhos é que guardavam o tempo
perdido 

Que nunca é hora, menina
e sempre é



quarta-feira, julho 25, 2012

Se eu pudesse te guardava aqui
te dava refúgio enquanto te fazia meu suor
(re)velava tua respiração de homem tonto de vida e dor
te enchia de amanheceres
escrevia amor no teu corpo
mas só o que me resta é esta pintura
e esta voz
cortando com boleros a felicidade


segunda-feira, julho 23, 2012

Era pra eu ter ficado quieta
Era pra eu ter ficado lúcida
Era pra eu ter ficado todas as outras

Acontece que só o que me ensinaram foi a prender botões
a bordar em cruz e cores
a fingir que as mãos sob as coxas cobertas bastariam pra me fazer mais doce
(e eu nem acredito em pernas cruzadas)

Era pra eu ter ficado dia
mas havia a tua boca a profanar as minhas escrituras

domingo, julho 22, 2012

Que tudo baste por aquilo que tem de silêncio
Beijo a sua boca com calma e delícia
pra calar melhor

quarta-feira, julho 18, 2012

Nunca te contei, mas sempre fui boa em encontrar esconderijos
guardei ontem mesmo uma menina estúpida em mim
tola de repetido único amor

A primeira vez que calei foi por susto
silenciar é fugir depressa pra dentro de um armário quente
Noite é escura
Eu sou mais

Nunca te contei, mas eu minto bem
(embora nunca o faça)

Sempre que há queda
Estilhaço




terça-feira, julho 17, 2012

verdade
eu gosto da fatalidade
nem comida leve
nem bocas sem beijo
abismo
felicidade breve
no drama das palavras vulgares

a volúpia me cai como vestido de noiva
e gozo







domingo, julho 15, 2012

Tinha olhos surpresos
e traços que contavam mais sobre si do que as palavras que não dizia

Era um homem
Era a noite

Até temer
ela nem lembrava que ainda tinha dentes
Chega uma hora em que olha no espelho e não encontra mais o avesso
a cara é só retrato 3x4 da sua identidade emaranhada
o que há por trás é a casa escura soando berros de alguma canção inominável
Memória tem cheiro de flor em velório
doce cozinhando em panela de vó

Se ainda acreditasse, abriria as cortinas
chorava rios e fingia ser feliz

Nem pra chover deus ajuda



segunda-feira, julho 09, 2012

eu saberia atravessar silêncios absurdos
digerir as mãos ausentes sobre o corpo morno
o poucamor que o tempo faz calmaria
eu poderia fingir o grito
eu poderia conter a falta
controlar

mas você vem com as palavras inesperadas
cantando as histórias de milanos
apaga o mapa
embaça a vida
risca na parede do quarto os dias

esquece

Eu queria dizer que eu tenho medo.

então abre os olhos de felicidade verde
suspiro
é sempre noite

*

segunda-feira, junho 04, 2012

Vem como amigo de infância, íntimo,  para sentar-se na varanda da casa da memória. Traz a fome e a voz como se oferecesse mais um mate. Ela nem sabe ainda se é tempo, mas escuta a prosa longa sobre os dias e a árvore genealógica que data do século quatro. Ele sorri e pronuncia palavras como cantigas de ninar esquecidas. Ela suga o sumo da surpresa. A vida pode ser meio doce, suave. Rotina é um aborrecimento delicioso. Seco o vinho, sorve a lágrima com espirotromba enquanto escreve mais um dia.
 
  

terça-feira, março 27, 2012

carrego os minutos todos de antes
pequenos riscos nos cantos dos olhos
a noite sempre tem alguma estrela que insiste em cair
fazendo promessas que não serão cumpridas


é sempre tudo de novo aqui

preocupo-me em fazer dormir a madugada
em fazer nascer uma manhã
passos das meninas
os risos gorjeando o dia

*    *        *
  *  *     *
        *

domingo, março 25, 2012

eu tenho tantas máscaras
(quase escondo o meu rosto rubro)
se finjo de estátua sem membros
é porque o que me falta é a coragem de ter olhos

e a verdade é que em todos os copos
em todos os corpos
eu sangro lentamente
estrela ausente de uma madrugada estéril
bêbada de mormaço dos dias quentes
de um cais febril

*

sexta-feira, março 16, 2012

Os pés passam
         ligeiros
             curtos
               apressados
na rasteira do dia
vento de Bandeira
que varre as folhas
e os meus cabelos tintos

Sem relógio
saudade faz poesia numa taça de café

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

E vem de novo a vida
pombagirando desembestada
velozvorazvermelhaventando


as vozes confusas
vadias de carnaval e medo
lambem os pés ariscos

varrida a via suja
o que sobrevivive
é risco

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Um redemoinho de palavras enlaçou os livros esquecidos

Não declararam amor
tampouco pediram perdão pela falta de gestos

Eram chuva forte sobre os papéis antigos
sobre os rostos
sobre as mãos tatuadas no último abraço
sobre nós desfazendo o presente

Perdia-se o tempo nas dívidas
(mágoas divisando o antes e o que restou)
perdia-se na bijouteria colorida e falsa

Mas os olhos teimosos guardaram o perfume da flor
enquanto nascia de novo a Poesia

*

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

vem redemoinho, pai
vento de temporal
tempo cheio de dedos
vai levar toda certeza
maldizer dos sonhos meus

eu aqui na menineza
tenho medo de rodar
nas ondas fartas de mar
virar cantiga, paizinho
pra brincar melhor a vida

sexta-feira, janeiro 13, 2012

tudo previsível como uma penteadeira

beijos gastaram todo o batom
mas restou o sangue
volúpia ardente na página daquele livro
respiro o teu perfume
quando a noite insiste em se fazer inteira
diante do espelho
tudo é nu

(gavetas também não escolhem as lembranças)

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Você estava tão perto
eu era capaz de adivinhar-lhe o peito
o cheiro de café e pó nas dobras da camisa
o redemoninho moreno, suas ideias

Você estava tão perto
que bastaria um gesto pra desfazer a ruína e o nó
um vento urbano suspirando na nuca
as palavras que me nego a repetir

Onde você esteve esse antes todo?
Se não era somente dentro de mim?
sigo as tuas palavras
segui teus passos
ainda susto
minha respiração

dilúvio das não-respostas
daquilo que nos foi roubado

como o sonho infantil de dia de Natal
como o verso do livro da cabeceira
como a flor
devorando meus olhos tristes

terça-feira, janeiro 03, 2012

Foi quando fomos jovens que abrimos portas
e dentro delas paredes de espelhos
tornaram infinitos nossos desejos?

 *

quinta-feira, dezembro 29, 2011

é preciso lembrar para esquecer

não há cigarro que apague a dor
nem dor que não se torne cicatriz

(é tempo)

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Juventude

O que havia de mim esvaiu-se
areia de ampulheta
levou aquilo que havia de sol

A peça de argila ocre
relembra o sopro
sem temor por tornar-se pó

segunda-feira, novembro 28, 2011

E se eu te peço pra abrir a caixa -
e tirar de lá aquela flor
as gargalhadas
a madrugada vestindo meias
a ceia
mãos dadas
o grito
os primeiros passos e depois
a chave que não é minha
palavras nem ditas
o futuro
tanta, tanta saudade
- será ainda presente?

domingo, outubro 16, 2011

as palavras nuas sobre o lençol
espelhavam os corpos
amantes
antes de o mundo pedir silêncio

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

posse


um pedaço do teu pão e do teu dia
um pouco de sonho
o que te adoece
uma noite de orgia
a página roubada do livro de poesia
asfalto florido
a saliva e depois

ser presa
surpresa
ser teto
ser verso
certeza

mas falta

segunda-feira, janeiro 31, 2011

escorrega pelos vãos, felina
arranca do meu sumo a força
para a sua escravidão
meus medos degusta cretina
lambe as pontas dos dedos
sussurra então um segredo
embaraça minha cabeça
depois ri feito cigana

a Poesia vadia pelo meu corpo
se mata é pra me fazer existir

da conquista, restou sob as mãos a cicatriz
nem a palavra nem o medo
como memória
uma boca úmida
ruídos dos sorrisos pares
Amor brotado como aquela flor
 (rompente)

Onde?

quarta-feira, novembro 03, 2010

a foto guardava a Travessia.
tão azul
que eu podia acreditar que era minha
tanto quanto aqueles dedos longos que despetalavam margaridas

naquele tempo o infinito ainda estava a meus pés

quarta-feira, outubro 13, 2010

Morrer um pouco

Era como se tivesse rasgado o peito frágil em que escrevera seu único poema. E tocado o fósforo ali depois de riscá-lo mecanicamente na caixinha que guarda o café portenho.

As lembranças não são sempre fumaça?

O amor enrodilhou-se anelado diante dos meus olhos mudos e subiu ao céu. Defunto.

terça-feira, outubro 05, 2010

Exercício de dizer

Havia nela ainda um quê de brisa. Não se sabia de onde vinham os cabelos em fúria ou o sempre cheiro de mato na pele. Era toda selvageria guardada na boca bem selada. Diferente de todas da casa, mais se aproximava era de Brusque, a gata arredia, ou das árvores do quintal. Silenciosa, o que deixava escapar às vezes eram ruminações de menina em brinquedos secretos roubados dos livros: dragoínas voejantes, docerejas, grumins.
Passarinhando pela casa, em arrulhos de coquetes, as outras irmãs. Saias de goma, fitas, cabelinhos. Orbitando sobre a mãe ocupada em fazê-las boas. Mulheres um dia. Donas. Agora todinhas filhas, filhotes sobre a asa gorda e regina.
Ina. Menos que substantivo concreto. Pedaço de nome: Catarina, menina, sina. No mesmo livro prendia seus olhos de bicho devorando as figuras já pálidas. Ninguém a via, alheia de tudo na sua roda de inventar o mundo.

domingo, junho 27, 2010

Era domingo de mormaço e saliva
vizinhento e pegajoso
calcinhas,
panela,
ela

Era domingo com gosto

(se ainda tivesse pulso, fazia um samba)

domingo, junho 20, 2010

-Vai
eu te diria se pudesse
sem lágrima
sem gesto de adeus
sem despedaçar-me

Há tanto que mastigo as dores
Há tanto que enxugo a saliva
que a palavra só
é partida

domingo, junho 13, 2010

das coisas que já não digo:
tanta água
algum medo
amor
horas gordas
um copo de sal
o corpo só

dobrada em silêncio
a matéria dos segredos alimenta-se dos segundos
até ser navalha

domingo, maio 09, 2010

Álvaro de Campos e sua poltrona de melancolia.
Seus tapetes.
As cartas.

Ridículos

Enrodilhei-me no nonsense da palavra amorosa.
Corpo nu.
E eu já nem tinha medo.

A madrugada faz ausência.
Ainda é (im)perfeito: chove.
(mas eu não ouso dizer)

domingo, abril 04, 2010

Rasgou a esperança com dentes de fera.

terça-feira, janeiro 26, 2010

medo é veneno
um céu sem estrela engole a memória
amor é temporal
agora chove

(você me guardaria na caixa das coisas esquecidas?)

segunda-feira, novembro 23, 2009

pra me perder no redemoinho do teu peito
nem um gesto
basta a noite
a riscar raios em hálito de café

sexta-feira, agosto 14, 2009

Parto

E se também a esperança saísse de dentro dela?

terça-feira, julho 21, 2009

Tempo

Com ele é sempre bom envelhecer.

segunda-feira, julho 13, 2009

Aniversário

O presente é um sonho.

domingo, julho 12, 2009

Amor

Entrou como quem volta para casa.

terça-feira, junho 16, 2009

Presente

Alice trouxe o coelho e todo o tempo perdido.

segunda-feira, maio 25, 2009

caço nas páginas daquele livro antigo
como dizer que eu te amo quando não digo
ignoro o risco da palavra-títere
e traço ainda no espelho o caminho
Esquerdo

terça-feira, maio 12, 2009

então me vem você
palavra já velha na minha saliva
riso ancestral
sai você de dentro
(sempre esteve?)
peito e sapatos cansados
os livros dentro da valise
risca de novo a história

você boreal
cor alterada na retina
amanhece com boca de café
a noite escura
esclarece o mistério da caixa

escurece
(a chave está no lugar)

você vem.

*
*
*

(e se calo é por não precisar saber)

sexta-feira, maio 08, 2009

Ele tocou seu sexo como quem salva um animal, ferido e frágil.

(pássaro delicado esquecido de voar.)

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

O sentido da vida

Acho que toda a minha imaginação empenhou-se, literalmente, no umbigo. Tudo o que o produzo é pra o bebê que cresce-se Francisco ou Alice cá nesta barriguinha já avantajada. As leituras tb andam se voltando pra gestação, parto, os processos todos que envolvem fazer-se mãe, enfim... Tudo isso é uma forma de dizer que os textos daqui talvez revelem um caminho diferente do que os seus irmãos mais velhos, que o olhar, talvez, por hora, veja outros aspectos que não costumo observar com tanta atenção...

Pra abrir os trabalhos, achei bacana compartilhar um trecho do roteiro d'O sentido da vida, do Monty Python, que sintetiza com humor o porquê de minha declarada escolha em esperar e me preparar pra um parto normal e domiciliar.

****

O Milagre da Vida

Monty Python


Cena: O Milagre da Vida.

Corredor de Hospital. Uma parturiente é levada apressadamente pelo corredor, deitada sobre uma maca que tromba violentamente contra várias portas de vai-e-vem. Parturiente e enfermeira passam para uma sala de consulta, onde dois médicos tentam acertar latas de cerveja vazias em um cesto de lixo.

Médico 1: CENTO E OITO!!

Enfermeira: As contrações da Sra. Moore estão mais frequentes, doutor.

Médico 1: Ótimo, ótimo. Leve-a para a sala do terror-fetal

Enfermeira: Certo.

Os três passam para sala de parto.

Médico 1: Está meio vazio isso aqui, não?

Médico 2: Siiiiiiiiim!!!!

Médico 1: Enfermeira, mais aparelhos, por favor!

Enfermeira: Sim, doutor.

Médico 1: Sim... O EEG, o Monitor BP, e o AVV, por favor.

Médico 2: E traga o aparelho que faz "Ping"!

Médico 1: E traga os aparelhos mais caros, para o caso do Diretor aparecer.

A sala de parto é inundada de aparelhos. A parturiente desaparece por trás de todo o equipamento.

Médico 1: Agora está melhor, bem melhor...

Médico 2: SIM!!! Agora sim!!

Médico 1: Mas ainda tem alguma coisa faltando... (Eles se concentram por um momento)

Médico 1 e 2 (em uníssono): Paciente?

Médico 2: Onde está a paciente?

Médico 1: Alguém viu a paciente ?!?

Medico 2: Paciente!

Enfermeira: Aqui! Achei!!

Médico 1: Traga-a aqui.

Médico 2: Cuidado com a máquna!

Médico 1: Chegue mais perto!

Médico 2: Pula pra cá... Upa!

Médico 1: Oi! Não se preocupe que está tudo bem.

Médico 2: Nós vamos curá-la.

Médico 1: Deixe tudo conosco, você não vai nem saber o que foi que aconteceu.

Médico 2: Tchauzinho... Tchauzinho.... Abram o soro!! Injeções!!!!

Médico 2: Posso por o tubo na cabeça do bebê?

Médico 1: Só se eu puder fazer a episiotomia.

Médico 2: OK.

Médico 1: Agora, pernas pra cima.

As pernas da paciente são colocadas nos estribos, enquanto os médicos abrem as portas em frente.

Médicos 1 e 2: Vão entrando, vão entrando... Alegria, alegria!! Entrem, entrem, espalhem-se por aí.

Entra uma pequena horda, a maioria médicos, mas entre eles dois japoneses com máquinas fotográficas e filmadora. O médico 1 esbarra em um homem.

Médico 1: Quem é você?

Homem: Eu sou o marido.

Médico 1: Sinto muito, mas apenas as pessoas envolvidas podem ficar aqui.

O Marido sai.

Sra. Moore: O que eu devo fazer?

Médico 2: Pois não?

Sra. Moore: O que eu devo fazer?

Médico 2: Nada meu bem, você não é qualificada.

Médico 1: Deixe conosco.

Sra. Moore: Para que é isso???

Ela aponta para uma máquina.

Médico 1: Essa é a máquina que faz "Ping".

A máquina começa a fazer "Ping".

Médico 1: Você viu? Isso significa que seu bebê ainda está vivo.

O Médico 2 aponta para outra máquina.

Médico 2: E essa é a máquina mais cara de todo o hospital.

Médico 1: Sim, e custou mais de 750.000 libras!

Médico 2: Que sorte a sua, hein??

Enfermeira: O Diretor está aqui, doutor.

Médico 1: Então rápido! Liguem toda a aparelhagem!!

Eles ligam. Tudo começa a piscar e bipar. Entra o Diretor.

Diretor: Bom dia, senhores.

Médicos 1 e 2: Bom dia, Sr. Pycroft.

Diretor: Hummm, muito bem!! (Parecendo impressionado) E o que é que vocês estão fazendo agora?

Médico 1: É um parto.

Diretor: Ah! E que tipo de coisa é isso?

Médico 2: Bom, é quando tiramos um bebê da barriga de uma mulher.

Diretor: É impressionante o que podemos fazer hoje em dia. Ah! Vejo que vocês estão com a máquina que faz Ping. Essa é a minha favorita. Olha so, nós alugamos essa máquina de volta da companhia para a qual havíamos vendido! Dessa forma ela entra como gasto do mês corrente, em vez de entrar na despesa geral. (Todos aplaudem). Obrigado.. Obrigado.. Nós tentamos fazer o melhor possível. Bem, por favor continuem.

Ele sai da sala.

Enfermeira: Oh! A vulva está dilatando, doutor.

Médico 1: Sim, aí está a cabeça. Sim, 4 centímetros, 5, seis centímetros.

Médico 1 e 2: Luzes! Amplifique a maquina de ping! Colocar as máscaras! Sucção! Lá vem ele!!!

O bebê chega.

Médico 1: E amedrontem-no!

Eles agarram o bebê, seguram-no de ponta cabeça, dão um tapa, põem tubos no nariz, esfregam-no com água fria. Daí o bebê é colocado sobre uma tábua de carne e o cordão é cortado com um cutelo.

Médico 1: As toalhas ásperas!

O bebê é seco com as toalhas ásperas.

Médico 1: Mostrem-no para a mãe.

Ele é mostrado à mãe.

Médico 1 e 2: Já está bom. Certo. Vamos sedá-la, numerem a criança. Meçam, façam a tipagem sanguínea e... isolem-no!

Enfermeira: Ok, o show acabou.

Sra. Moore: É menino ou menina?

Médico 1: Eu acho que é um pouquinho cedo para começar a impor papéis à pobre criança, não acha? Agora um conselhozinho. Você pode começar a perceber que está se sentindo irracionalmente deprimida. DPP como nós médicos chamamos. Então vou te dar um monte de pílulas felizes para você, e você pode descobrir tudo sobre o parto quando você chegar em casa. Está disponível em Betamax, VHS e Super 8.

Os médicos, a pequena horda, as enfermeiras, todos desaparecem, deixando a mãe com olhar perplexo, sozinha com a máquina que continua... Ping, Ping, Ping..


Copyright © 1983, The Monty Python Partnership.

terça-feira, novembro 18, 2008

Bossa

Não tenho mais tempo pras palavras
Larguei da poesia
Não quero mais essa mesma canção
Adeus, meu bem
Vou ser morena do samba de alguém

sexta-feira, novembro 14, 2008

Madrigal

ele pinta palavras em meu corpo
renascentista
a madrugada é nua e farta
baixa contínua em nós
descendente é o inferno
cadência perfeita
onde descobri a pureza

terça-feira, novembro 04, 2008

Pequena morte

COMA
(me)

domingo, novembro 02, 2008

Desdenho o amor
como quem enxerga o pó sobre os livros da estante
como quem saliva diante da mesa em banquete

Passa por mim
Nem sinto sede

O amor é brisa nas minhas cortinas fechadas
Busca imprevista fresta
Chove a vidraça

Sem susto

Torno a dormir
Faz escuro e estou cansada