quarta-feira, novembro 03, 2010

a foto guardava a Travessia.
tão azul
que eu podia acreditar que era minha
tanto quanto aqueles dedos longos que despetalavam margaridas

naquele tempo o infinito ainda estava a meus pés

teste

teste

quarta-feira, outubro 13, 2010

Morrer um pouco

Era como se tivesse rasgado o peito frágil em que escrevera seu único poema. E tocado o fósforo ali depois de riscá-lo mecanicamente na caixinha que guarda o café portenho.

As lembranças não são sempre fumaça?

O amor enrodilhou-se anelado diante dos meus olhos mudos e subiu ao céu. Defunto.

terça-feira, outubro 05, 2010

Exercício de dizer

Havia nela ainda um quê de brisa. Não se sabia de onde vinham os cabelos em fúria ou o sempre cheiro de mato na pele. Era toda selvageria guardada na boca bem selada. Diferente de todas da casa, mais se aproximava era de Brusque, a gata arredia, ou das árvores do quintal. Silenciosa, o que deixava escapar às vezes eram ruminações de menina em brinquedos secretos roubados dos livros: dragoínas voejantes, docerejas, grumins.
Passarinhando pela casa, em arrulhos de coquetes, as outras irmãs. Saias de goma, fitas, cabelinhos. Orbitando sobre a mãe ocupada em fazê-las boas. Mulheres um dia. Donas. Agora todinhas filhas, filhotes sobre a asa gorda e regina.
Ina. Menos que substantivo concreto. Pedaço de nome: Catarina, menina, sina. No mesmo livro prendia seus olhos de bicho devorando as figuras já pálidas. Ninguém a via, alheia de tudo na sua roda de inventar o mundo.

domingo, junho 27, 2010

Era domingo de mormaço e saliva
vizinhento e pegajoso
calcinhas,
panela,
ela

Era domingo com gosto

(se ainda tivesse pulso, fazia um samba)

domingo, junho 20, 2010

-Vai
eu te diria se pudesse
sem lágrima
sem gesto de adeus
sem despedaçar-me

Há tanto que mastigo as dores
Há tanto que enxugo a saliva
que a palavra só
é partida

domingo, junho 13, 2010

das coisas que já não digo:
tanta água
algum medo
amor
horas gordas
um copo de sal
o corpo só

dobrada em silêncio
a matéria dos segredos alimenta-se dos segundos
até ser navalha

domingo, maio 09, 2010

Álvaro de Campos e sua poltrona de melancolia.
Seus tapetes.
As cartas.

Ridículos

Enrodilhei-me no nonsense da palavra amorosa.
Corpo nu.
E eu já nem tinha medo.

A madrugada faz ausência.
Ainda é (im)perfeito: chove.
(mas eu não ouso dizer)

domingo, abril 04, 2010

Rasgou a esperança com dentes de fera.

terça-feira, janeiro 26, 2010

medo é veneno
um céu sem estrela engole a memória
amor é temporal
agora chove

(você me guardaria na caixa das coisas esquecidas?)