terça-feira, abril 22, 2008
quarta-feira, abril 02, 2008
Sacrilégio
Se é santo teu nome
profano-o em minha boca
homem
pêlo, pele, pau
rasga-me a carne a navalha
explode meus poros
abertos
Se sempre fui santa
teu gozo me torna puta
mulher
cadela, vadia, cretina
embalo o menino nos seios
desabrocho a rosa orvalhada
secreta
Fiéis, adoremos
profano-o em minha boca
homem
pêlo, pele, pau
rasga-me a carne a navalha
explode meus poros
abertos
Se sempre fui santa
teu gozo me torna puta
mulher
cadela, vadia, cretina
embalo o menino nos seios
desabrocho a rosa orvalhada
secreta
Fiéis, adoremos
quinta-feira, março 27, 2008
Quaraí
No quintal da minha casa nasceu um deserto
Eu era pequena e gostava de queimar as solas dos pés na areia quente
Me fazia gigante e tocava com dedos de sombra o horizonte
Plantei toda querência nos fundos da minha infância
Pra inundar para sempre o meu particular sertão
Eu era pequena e gostava de queimar as solas dos pés na areia quente
Me fazia gigante e tocava com dedos de sombra o horizonte
Plantei toda querência nos fundos da minha infância
Pra inundar para sempre o meu particular sertão
quarta-feira, março 26, 2008
quando eu era menina, eu gostava dos muros
havia o da escola e os beijos fugidios
capote que protegia o corpo dos olhos e do minuano
o da casa era travesseiro
compartilhar de estrelas
gaveta de cochichos
em todos me escondia
tornava-me grafite
escorrendo feito rímel em fim de festa
quando chovia
minha cidade tem um muro e ele não é meu
guarda os cabelos de um rio
ondas vermelhas em fim de tarde
suas meninas não tem segredos
nem corpos que se escondem
gravuras coloridas
escorrendo feito rímel em fim de festa
quando chove
havia o da escola e os beijos fugidios
capote que protegia o corpo dos olhos e do minuano
o da casa era travesseiro
compartilhar de estrelas
gaveta de cochichos
em todos me escondia
tornava-me grafite
escorrendo feito rímel em fim de festa
quando chovia
minha cidade tem um muro e ele não é meu
guarda os cabelos de um rio
ondas vermelhas em fim de tarde
suas meninas não tem segredos
nem corpos que se escondem
gravuras coloridas
escorrendo feito rímel em fim de festa
quando chove
terça-feira, março 25, 2008
sexta-feira, março 21, 2008
Um dia para Tiago
Acordou cedo, como sempre. Varrendo a escuridão e abrindo as janelas pra esvoaçar o sol pela calçada. Espantou os bêbados e seus tijolos. Adormeceu os postes. Fazia isso com a lentidão de quem repete por séculos o mesmo gesto. Uma letra tocando as margens do caderno de caligrafia, e de novo, e de novo, até tornar-se esfera. Como o sol que agora cochilava sobre os telhados da vizinhança. Um gato. Gordo. Como ele, pachorrento e velho. Sem uma utilidade qualquer. O dia postou-se em andor, pra ser santo. Respirou fundo. Era sertão na cidade baixa, mas o cheiro era de mar.
domingo, março 16, 2008
podia ser de março
pau, pedra, temporal
80% do meu corpo
a gota que falta pro final
berço de jangada e boto
podia banhar a menina que passa
espelho de lua com rã ancestral
podia ser chuvinha miudinha
podia chover sem parar
Odoiá, Yemanjá
podia encher a maré
abrir-se pelas mãos de Moisés
guardar o sal nas lágrimas de Portugal
agigantar-se, quase terra
sob aurora boreal
podia faltar, até
se não fossem seus olhos
azul seria só água
pau, pedra, temporal
80% do meu corpo
a gota que falta pro final
berço de jangada e boto
podia banhar a menina que passa
espelho de lua com rã ancestral
podia ser chuvinha miudinha
podia chover sem parar
Odoiá, Yemanjá
podia encher a maré
abrir-se pelas mãos de Moisés
guardar o sal nas lágrimas de Portugal
agigantar-se, quase terra
sob aurora boreal
podia faltar, até
se não fossem seus olhos
azul seria só água
terça-feira, março 11, 2008
sábado, fevereiro 23, 2008
risquei a vida no meu corpo
caderno de caligrafia de menina
(como acertar o horizonte tão reto?)
o borrão é um muro que se vê do espaço
as rasuras escuras escondem o erro
(qual era a palavra querida?)
as linhas continuam nas mãos
pequeninos túneis sem locomotiva
o buraco visto em uma agulha perdida
fechadura
a palavra emenda o mundo
lê histórias pra me fazer sorrir
se choro é porque adormeci
caderno de caligrafia de menina
(como acertar o horizonte tão reto?)
o borrão é um muro que se vê do espaço
as rasuras escuras escondem o erro
(qual era a palavra querida?)
as linhas continuam nas mãos
pequeninos túneis sem locomotiva
o buraco visto em uma agulha perdida
fechadura
a palavra emenda o mundo
lê histórias pra me fazer sorrir
se choro é porque adormeci
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
ando pelas ruas de olhos fechados
sou meus pés descalços na pedra fria
sinto tudo que não posso ver
os bêbados riem porque desconhecem
crianças inocentes e cruéis pinçam as asas coloridas de uma borboleta
o dia é devorado com semente e polpa verde
e os líquidos todos vertem
cachoeira, pranto, sangue, sol
sou a frieza do gelo que se extingue até tornar-se saliva espessa
costuro-me por dentro
agulha engolida com linha prata, cicatriz
as obscuridades se abrem
nascem palavras
ai
sou meus pés descalços na pedra fria
sinto tudo que não posso ver
os bêbados riem porque desconhecem
crianças inocentes e cruéis pinçam as asas coloridas de uma borboleta
o dia é devorado com semente e polpa verde
e os líquidos todos vertem
cachoeira, pranto, sangue, sol
sou a frieza do gelo que se extingue até tornar-se saliva espessa
costuro-me por dentro
agulha engolida com linha prata, cicatriz
as obscuridades se abrem
nascem palavras
ai
domingo, fevereiro 17, 2008
caixinha na cabeceira
a chave em bolso de calça
esquecida na lavanderia
mala roxa guardando lembranças
retratos antigos
do que fui um dia
os cheiros dos homens que fui
as mechas dos cabelos que tive
e algumas pedras
o que pesa é a saudade
e aquilo que eu não sei
frágil tatuado no lado esquerdo
pra poder não partir
a chave em bolso de calça
esquecida na lavanderia
mala roxa guardando lembranças
retratos antigos
do que fui um dia
os cheiros dos homens que fui
as mechas dos cabelos que tive
e algumas pedras
o que pesa é a saudade
e aquilo que eu não sei
frágil tatuado no lado esquerdo
pra poder não partir
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Oscuridad
Nem é maio, mas é tudo muito rápido e eu flutuo - um obelisco (monumento, falo) em névoa azul penetrando a treva. Nos esgotos correm os trens e os subterrâneos desejos, oscuridades sob os passos dos que sempre andam (e nem sempre vêem). Subtem-se, sublimados pelo ar de prata. Abelhas riscam o asfalto largo cercadas de concreto e história. As palavras gritam nas paredes das casas e das calçadas. Nem é maio, mas elas estão sempre esperando filhos, embaraçadas. Uma casa cor-de-rosa ergue-se majestosa fazendo sombra sobre os títeres. Nem é maio, mas venta. Buenos Aires é uma cidade pra se morrer lentamente, asfixiando-se em silêncios, cafés e tangos de Gardel.
terça-feira, janeiro 29, 2008
segunda-feira, janeiro 28, 2008
domingo, janeiro 27, 2008
sábado, janeiro 26, 2008
Acaso o vento passe
abertas as portas da Casa
o Vento invade sem pudor
acaricia suas paredes mornas
escancara as limpas janelas
tira tudo do lugar
cobre o chão de folhas e flores
até parecer jardim
o Vento bagunça certezas de tijolos e concreto
até a Casa tornar-se ar
depois silencia e parte
batendo a porta
nas cores dos objetos
o tempo deposita pó
amarela os sorrisos dos retratos
só cantam os fantasmas e as coisas mortas
Casa trancada no sótão
só espera furacão
quarta-feira, janeiro 16, 2008
domingo, janeiro 13, 2008
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